segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Hoje a tristeza não me caiu bem. Não serviu nem pra parir poesia. Dor de parto sem parto.
As lágrimas escorrem no rosto furtivas
denunciam essa dor
Esse mar primordial de águas antigas
quanta lágrima já não presenciou?
Pra ele não é nenhuma novidade
Sou só mais uma
Comum
Pra mim sou a única
criatura do planeta a me condoer
Mas o mar é generoso
e me dá a ler 
seus pergaminhos brancos
como já fez centenas de bilhões de vezes
e ri de mim com risadas azul-verdes:
"Calma, menina, a vida é mais,
tudo encontra direção 
anda pra frente e pra trás 
às vezes para em círculos
pra testar nossa espera
Olhe lá, esse buraco é mais fundo
só sinta pena de quem nunca se perdeu
porque é sinal que só nadou no raso
desconhece o que é
profundo". 

domingo, 29 de setembro de 2019

O que era pra ser
entre eu e você
ficou perdido
em algum lugar
de um passado alternativo
mas a gente nem se conheceria
se nossos futuros não tivessem existido
Portanto, corrigindo:
O que era pra ser
entre eu e você
ficou perdido
em algum lugar
de um futuro alternativo
que pra piorar
deve ter sido só imaginação minha
Como pode um futuro alternativo imaginário doer mais
que realidade?

Se eu ficar assim bem quietinha
sem me mexer
o coração dói menos?
Tenho em meu horizonte a contínua suspeita
de que alguma doença grave muito grave me espreita
mas nunca nada acontece
A grande ironia da morte é me manter assim submissa a esse medo todo
A grande ironia da vida é viver viver viver até morrer.
Esse buraco negro está me sugando aos pedaços
Buraco sádico e psicopata
Arranca o coração
com requintes de crueldade
O que sobrará
pra bater aqui?
Devolve!
Leva outra coisa em troca
quem sabe um pedaço da minha boca
e da língua
Quem sabe um olho
as pontas dos meus dedos e
orelhas
um pedaço das costas
joelhos
uma nádega
mamilos
um calcanhar?
Qualquer outra coisa
será mais fácil
Mas meu coração preciso inteiro
porque se eu não puder mais amar
não vou saber mais viver
nem vou querer mais saber. 
O primeiro pensamento da manhã voa na tua direção
Passarinho de asa curta e canto desafinado
Sonhando com voos impossíveis
O segundo pensamento da manhã
Lavar o rosto
Que olheiras
A marca do sabonete
Você
Tocando a minha pele e deixando
Seu perfume e dizendo
Que linda 
Terceiro pensamento do dia 
Janelas para o 
Mar!
Mar!
Quanto azul dentro desse teu olho
Mexe com minhas águas internas
Me revira
Me desorienta
Me esvai
Me repele
Me pele
Me invade
Me arde o peito o dia inteiro
Entra na minha comida
Na minha roupa
Na minha toalha
Na luz dos meus olhos
Na minha escuridão
Na minha poesia
Penso o dia inteiro em escrever
Pra desgastar esse nó
Pra ver se ele solta
e me devolve o ar
e me devolve a paz. 

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Eu vi o amor que nascerá
entre mim, eu, tu e você
Eu sei naquele instante que a vida vai mudar
E que meu peito teu foi ocupado por ti e você
Amava demais e quem nunca (?) quando soubesse que será a última vez
Tudo o que eu pensarei foi transpassado por essa história
E agora o que quero não é mais o que eu quiser
porque se tornaram quereres juntos
Meu teu nosso de nós dois
e do mundo inteiro
que imaginará que a gente bem sempre se quis
Quem suporta abrir as comportas do sonho
Abrir as compotas de sonhos
Comportar sonhos?

terça-feira, 17 de setembro de 2019

funda cicatriz
a atriz hoje se ri
mas foi por um triz

Hoje sou praia sem mar
Rainha sem castelo
Cavaleiro sem espada
Clave de sol em chuva 
Sustenido sem bemol
Noite sem luar
Hoje sou dor sem ai
Olhar vendado
Sangue parado
Círculo quadrado
Abraço sem tato
Cavalo de perna quebrada
Canoa furada
Caminho sem direção
Amanhã isso passa
A manhã logo vem
Ou não.  

Inconstante como o tempo atmosférico da cidade que habito
às vezes lantejoula colada em fantasia de carnaval
outras caída no chão da Sapucaí
dia de sentir ar puro florestal no meio do tráfego paulista
dia de sofrer até encher cisterna
Queria uma constância que não consta em peitos como o meu
inconstantes
Queria ter tempo de trocar de pele antes
pra não sentir tudo em carne viva
Mas parece que nunca dá tempo
Ou é hábito fazer com que nunca dê?
Inconstante como o tempo subjetivo desse corpo que me habita.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Ainda
Ainda isso tudo aqui
Nada finda
Nada findou por aqui
Finda um dia
Recomeça no outro
Ainda essa sensação
De saudade misturada com
dor misturada com
sonho misturado com
ainda isso
Ainda a inquietude
Ainda A coisa pressionando o caminho entre a garganta e o estômago
Ainda A coisa deixando a minha respiração sôfrega
Ainda A coisa
E uma vontade de desaguar nesse mar
de desaguar
de desaguar
e diluir
Silêncio
Meu deserto não sabe ser tão seco
Minhas palavras escapam quando estou dormindo
Minha alegria me trai
Não sei deixar de estar
Não sei deixar estar
Não sei deixar
Deixar...
Deixar
desaguar...
Água, mais água,
por favor
Ainda a sede.


quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Teus olhos dois cenotes
onde moro perenemente
onde morro permanentemente
encarnações sucessivas
por afogamento
choque térmico
parada cardíaca
sacrifício maia
desilusão

Sou Eva de Naharon
lá perdida há mais de 13000 anos
lá encontrada
sou tantas evas que se lançaram
e acharam que dava pé
que se lançaram
e bateram a cabeça nas pedras
que se lançaram
porque sabiam nadar
que se lançaram
porque não tinham medo
de ir até o fundo do poço
elas amavam
que se lançaram
porque viram sua imagem
narcisamente refletida
na margem

dois olhos verdes
onde eu me perco
onde eu procuro peixes ouro
e encontro e não encontro
onde eu me perco
e não enxergo saída
onde eu me perco
e me acho tanto




Olhos que batem asas para o azul
e (re)pousam em sonhos
Movimentam caudas em rios
e piscam demorado para a água (es)correr
Abrem-se em espanto enxuto
e (ex)cedem a luz dos meus dias

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Esse corpo teu:
infinitos eixos de simetria
com o meu
Nossas curvas de largura
seguem constantes
Nossos encontros: fora dos quadrados
Somos círculos sem arestas, sem vértices
sem submissão a esquadros
Somos linha infinita
que gira sem obstáculos
Equador
Novelo de lã
Raio da manhã circunavegando
Globo
Se você segue a leste
e eu a oeste
nos encontramos numa linha imaginária
em Greenwich
Nus sem nós
Eu cá, você lá
Espelho, espelho meu
Todo
simetria.
Jô.S.eB.
Tentar fugir disso é como tentar fugir das leis da gravidade
Se eu me jogar vou inevitavelmente cair no chão 
Se eu voar alto uma hora
chão

Fugir disso é como me esconder do tigre dentro da caverna do leão.
O coração da mulher bomba explode em cacos pontiagudos no centro de palcos
Sangra vinho tinto pelos dedos
e chupa-os

Não tem parada nem dono
Sorve até o último gole e parte em busca de outros cenários
Vampira

Coração bomba que já nada bombeia
Não é sangue
é vendaval
o que corre em suas veias. 



O medo nunca impediu ninguém de morrer ou adoecer, só mesmo de viver.
Pare de ficar parado em minhas veias, daqui a pouco você vai virar trombose e pode até me matar
Ah peito
Aperto
Há jeito
Vem perto

Ah dor
Ardor
Assopra
Amor

Ah ora
Agora
Me abre
Me goza

Para Flora com amor

Escrevo teu nome no ar e só depois eu respiro