quinta-feira, 2 de novembro de 2023

No tempo em que o tempo era meu eu estou agora me equilibrando na Ceci azul anil, eu estou na Ceci com cestinha na frente e quase caio mas não.


 Quando o rio enche, 

extra-vasa e es-corre pela face 

mas esse rio é salgado, se fosse mar não extravasava

mar comporta 

meu rio não.

Principia veio perdido debaixo do mato 

desce em planícies úmidas de espanto

lambe pedra, pedregulho, escarra raiz

faz-se rio

faz-se enchente

faz-se ameaça de repente

não cabe em si

perde a cabeceira

ribeira refratária

mas sempre acha o caminho de casa

trazendo às vezes entulho,

às vezes ecos de florestas 

solitárias.


Abro a página como quem rasga a pele

Branca, desabitada, extensa

O que diz a página da pele?

Quais as suas dimensões?

O que me contam os nervos do toque?

Cada pelo o que sabem sobre arrepio?

O que me diz o gesto, o quase gesto, o entre

Entre e me lê

Eu não sou hieróglifo

Minha pele fala/baba/saliva a tua língua.


às vezes essa energia pélvica que brota e quer desabrochar florestas inteiras, que anseia por começos e chora nos finais felizes e tristes e chora e molha a planta que brota e quer desabrochar olhos inteiros na pele

que tateia por pele

que adivinha a pele

que nunca repele

que apela por 

pele

pele

p

ele.


 Era uma vez uma boca imensa que comeu a si mesma. Fim. 

Eu essa boca imensa. 

Cheia. De tudo de todos de excessos de faltas. 

Eu essa boca enorme. 

Que fala e se arrepende e se arrepende se cala. 

Eu preciso colocar em algum outro lugar essa falta de lugar deslugar

Não dá mais pra sofrer calada alta madrugada adentro

estou tão farta ao mesmo tempo tão gulosa de mim

de me querer viva viva viva pra sempre

de me querer ser e ser e se(r)de novo e de novo

tão falta de me sentir cheia de buracos

vocação pra tatu é essa de cavar infinitos todo dia inteiro

de não achar que nunca chegou onde deveria

que chega no japão achando que é brasil e vice versa e adversa

vocação pra coruja essa vigília noite inteira que quer matar os passarinhos que anunciam o novo dia que nem acabou o velho ainda às 4 e meia 

vocação pra pólo norte e equador em um franzir de sobrancelhas

vocação pra perdida

florestal

desértica

pra amar a vida de um jeito extremo estranho inexperiente

vocação pra não querer o fim nem o começo

pra querer o meio inteiro e infinito e impossível

de tudo de todos

e de qualquer coisa boba que apareça pela frente

boca cheia que vomita a si mesma.


Hoje eu vi um inseto se debatendo pela vida no chão inundado do chuveiro

Ele tentava levar seu corpo diminuto pr’algum lugar que provavelmente ele desconhecia

Eu tive pena, tentei ajudá-lo, mas acabei sem querer arrancando-lhe uma pata

A vida é essa tentativa de nos levarmos pra algum lugar que provavelmente nem saibamos onde

e no fim das tentativas, talvez morrer, talvez continuar tentando mais um pouco. 

Eu tentei ajudá-lo do mesmo jeito que ajudo a mim mesma. 



Esse medo da morte que me dá essa fúria de vida

Mas qual vida? Vida a que preço?

Vida furiosa, desordenada, que vomita remédios de insônia

Vigil-ânsia eterna pra estar à espreita e surpreender a morte por trás

na esquina no guarda-roupa com o espelho.


Para Flora com amor

Escrevo teu nome no ar e só depois eu respiro