terça-feira, 4 de julho de 2023

Antes 1

Antes o feito que o perfeito

Antes o descalço que a desculpa

Antes Rita Lee que Rita Lobo

Antes o éter que a eternidade

Antes sorver-te que sorvete

Antes Cortázar que cortês

Antes Carnaval, depois também

Antes Equador que equação

Antes amar-te que em Marte 

Antes De Barros que de botas

Antes censato que censura

Antes em três anos do que nunca.

 (Escrito durante o desgoverno de 2018 - 2022). 



Antes 2

Antes hoje do que hontem

Antes agora que agoura

Antes vazado que vazio

Antes vertigem que virtuose

Antes sem juízo que ser juiz

Antes (acordar) tarde todo dia

Antes sorver-te que sorvete

Antes solidão que solidez

Antes Lúcifer que lucidez

Antes arrebatador do que nunca.

 O teu silêncio é a verdade doendo em mim.

embriagam-me, entorpecem-me

É só dentro do teu olho que eu encontro sentido

Pra esse mundo loucoestranho onde a gente foi metido

Nova rosa-dos-ventos

É leste oeste norte sul ou 

cu do mundo?

passei o túnel, saí do quarto escuro sem porta nem janela, abriram o congelador eu fugi, caí do penhasco numa cama elástica, fui atropelada por um travesseiro de penas, choveu de inundar aqui dentro eu achei uma bóia velha perdida entre cacarecos do paiol, acordei. dessa vez de olho bem aberto.

Não vou desistir de acreditar em qualquer coisa que sussurra aqui dentro.


Uma vez a cor da colcha ou do papel de parede ou as cortinas ou o tapete da sala já nutriram assunto e ansiedades, hoje as importâncias torcidas ressecando no varal.

Uma vez uns nomes de livros e um tanto de instrução e umas certezas delicadamente arranjadas e servidas com patê de gorgonzola, hoje só aqueles bolinhos de chuva com banana pra aplacar essa fome medonha.

Uma vez algum confronto por razão a troco de uns trocados de eu não disse, hoje a vontade impossível de dizer grande coisa esse tanto porque era pouco o que bastava 

Sempre foi.


A vida é maravilhosa e assustadora e às vezes muitas eu nem sei o que fazer com ela sei que quero que dure que volte a vida eu nem sei como pegar se aperto fura se solto cai e preciso empregar a exata força necessária que poucas vezes vem e não posso gastar tudo num dia só porque tem amanhã mas queria tanto gastar tudo agora porque tenho tanta fome e sonho magicamente brotar do chão recomeços a vida se perco me acha se acho me engano se esqueço desliza se encasqueto me cansa tanto acordar cedo e de novo e de novo comer ovo e fazer as coisas e um ano após o outro desejos e temores será que sei fazer isso direito sem tutorial no YouTube,  alguém?

No fundo a solidão é a única coisa sólida da vida

Na vida a solidão é a última visita de todas as horas

Nas horas em que a solidão é prato comido não resta ilusão.

De resto tudo invenção 

De resto nada resto

Rosto apagado

na multidão.

Suspensão.

Comeu suas emoções

Uma a uma

Naquele café da manhã

Naqueles longos cinco minutos de absoluta solidão

Comeu o prazer de ter feito seu primeiro pão 

E de escutar o mar e as crianças brincando logo ali

Perto o suficiente para se sentir em paz

Longe o suficiente para se sentir em paz. 

 Mãe: uma fotografia na sala

E uma vida de fotografias invisíveis pela frente.

A catadora Dora cata dor, adora a cata ora!

A catadora Dora não se chama Dora, não chora pra rimar, nem adora catar nada

mas cata dor, a sua e a minha

Ela passa pelo vidro da janela e puxa seu carrinho com bravura

Cata sua dor e rapidamente descarta-a

aprendeu a não doer por nada

Eu enquanto assisto a velha catadora penso em lições de alfabetização ridículas com a palavra catadora

Doendo uma dor privilegiada.

Ela tentou ensurdecer seus pensamentos barulhentos 

olhando as nuvens passarem, lentas,

sentindo que ainda há vento,

aventou: vai chover amanhã.

Ter um pedaço de grama sob seus pés é tudo o que mais poderia desejar 

depois de viver deixando cair balas de goma dos bolsos.

Ela sentiu como se já tivesse sentido tudo antes

mas só percebeu depois.

A vida a gente vive na hora

O que foi ou deveria ter sido é só matéria pra análise. 


Escrevo só pra continuar acreditando que só a palavra salva embora tantas vezes desacredite que haja qualquer forma de salvação que não seja só pela palavra. 

Que me salva. 

Jesus, isso soou religioso.  Credo cruz!

Ergo os olhos para os montes

De onde virá meu consolo?

O meu consolo vem dessas nuvens que passam

E de algum amor que fica. 

Nem ouvi a música que tocou 

Que sabor tinha a panqueca que comi

O que você disse minha filha 

Mergulhada nas histórias nas stories

Presente desalmado corpo

O indicador domesticado 

saltita entre feeds que alimentam nem sempre nutrem

A tendinite grita atende Niteeeeee

Fotos fotos fotos das fotos

Fisgada na rede me debato atabalhoada 

Abatida: mãe, sai do celular!

Vou postar esse aqui e já já já...

 Lendo as paredes me desloco pela casa, é madrugada, e penso essa é minha casa, mas ontem mesmo eu morava em outras texturas, outras cores, mas ontem mesmo minha janela era de abrir do meio pras extremidades não da esquerda pra direita, ontem mesmo a mãe no sofá vendo novela, ontem a tia no quintal, o tio cantarolando Roberto, a vó com seu passo lento chegava na minha casa. Até que seu passo cessou. As vozes dos tios calaram. As paredes outras. As águas maternas desaguaram na imensidão. E somente o cheiro dos seus cabelos e do creme facial permaneceram nas minhas narinas, e alguns fios de cabelos avermelhados presos na sua escova a pentear os meus vazios e silêncios e insônias e sorrisos.


 Impressiona a audácia da trepadeira que pressiona a telha porque quer 

ser céu 

Nas mínimas frestas semeia, ramifica e colhe a si mesma 

Olhe: faz festa pro sol 

e escolhe ver o mundo panoramicamente

Jamais se atém em demasia às causas das formigas ou minhocas.

Quem me dera ser assim. 


Cada palavra é uma pelezinha do dedo puxada no dente 

Serve ao menos pra provar algum sangue quente 

nesse corpo endurecido de nãos.

Há dias em que me espanto 

Em outros nada sinto.

Mas minto. 

 

Naquele gesto eu vi suas mãos pequeninas vendendo as mesmas outras balas vinte, trinta anos atrás 

Eu li nas suas mãos os lápis desapontados de um O que não completou sua curva na palavra 

Naqueles olhos cansados eu enxerguei seu menino maroto fugindo de tapa, fingindo sono, fungando o medo, sonhando com notas de deizão

No sinal.

Noite funda e úmida 

Daqui de dentro o mundo não parece ter fim nem começo 

daqui de dentro as coisas só são,

sem disfarces, sem adornos

No breu só tato medindo palmos sem encontrar obstáculos 

No breu o Braille encontra parágrafos inteiros sem pontuações 

Daqui de dentro o fora é lenda

o tempo nunca foi fatiado 

a pele comanda o ritmo cardíaco

a pele sempre soube mais.  

 Coloquei os meus desejos mais perigosos e secretos pra dormir no seu berço.

Acalentei-os até mesmo com canções de ninar.

Alta madrugada eles em sombras vêm puxar meu pé, causar calafrios, pânico, me vandalizar...

Isso é forma de retribuir toda a minha dedicação?


A vida é uma festa

A vida é uma fresta

Um espanto

Um estrondo

É fragilidade impetuosa

É travessia e atravessamento.

A vida aFlora

A vida nem cabe num viver 

Chega na metade e parece que foi hoje cedo

E não foi?

Não foi.

A minha já faz 43 anos. 

Ou 34?

Gracias a la Vida,

A Mercedes,

A Henrique, 

Que me han dado tanto. 


A coruja tenta dormir, mas seus dois abajures iluminam fantasmas de divã

Coração divaga adivinhando constelações esquecidas

Não se constata a presença de estrelas cadentes neste céu tão azul, por favor, não insista

A claridade dos teus cabelos rivaliza com o solstício de verão

Ouço música bem alto pra despistar meus pensamentos barulhentos

Este mar está revolto e espuma contradições persistentes. 

 Hoje me oprime 

Amanhã também.

Não tenho a pretensão de alcançar esse lugar

de troféus e desertos. 

Que guarde seu latifúndio improdutivo 

como herança de si.

Eu tenho a palavra solta e vadia.

Eu posso colher a flor que recém abriu no jardim.

Eu quero beber sol, lamber nuvem...

Guardei meu arpão

deixei-me pescar 

Mas só depois de nadar meu coração em outras águas. 

Livre é quem escolhe suas navalhas.




Para Flora com amor

Escrevo teu nome no ar e só depois eu respiro