quarta-feira, 4 de dezembro de 2019


desconfio dos mansos.
Às vezes guardam lobos piores que os lobos aparentes
procuro por desaparências
por loucos
por vozes roucas.
Águas paradas também afogam.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Máquina de lavrar

Eu sou completa por lacunas
Contusões existenciais
Sonetos quebrados
Sorrisos bêbados
Luas caídas
Nariz pingado.
Meu terreno é todo esbarrancado
Meus olhos cultivam peixes
Minha carteira esconde feijões.
Tenho fome de zodíacos
Não guardo nada além de um pouco de oxigênio.
Sou ingênua por preguiça
Sorrio por timidez
Apaixono-me três cápsulas ao dia
Não tenho nada que interesse ou sirva a ninguém em perfeito estado.
Crio violetas em aquários 
Mantenho as paredes azuis aguadas
E espelhos embaçados.
Esqueço uma cabeça perdida na bolsa
E um pedaço de coração no bolso da calça que bateu na máquina de lavar.
Lembrar de desmarcar cardio. Bateu. Acho.
Tenho inclinação por cavar buracos.
Tatuei uma linha infinita nos poros.
Sou uma fresta que não tem hora pra acabar mas uma hora...
Será que lágrimas podem afogar alguém de Peixes? 


Sou o produto do nada vezes coisa alguma dividido pelo infinito.



segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

a cura

a arte me salva
a arte me selva
a arte me céu
me sul
me norte
me dentro
a arte me imprime
a arte me explica
a arte me tem
a arte me é
me cura
me loucura
a arte me vaza
a arte me assopra
me sangra
me singra
me expõe
me transpõe
a arte me fere
me sal-va?
a arte me saliva
me solve
me sorve
me absolve?
a arte me absurda.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Elas estão aqui perto
- me diz Helena.
Mas eu sou tão descrente
Não sinto mais a presença dela
A dor deu lugar à saudade que deu lugar
ao vazio
Agora é só comigo
– é o que sinto.
Mas Helena diz que sente sua Claudete por perto
e quando termina seu solo
faz o oceano invadir
o meu peito inteiro...
Ontem lembrei da minha Mercedes
pela dor de Helena
Ontem lembrei de um abraço
que não encontro mais em mais ninguém
ontem lembrei que a vida
não vale vintém
mas vale tanto, tanto
a pena.

Invadi e ponto.
Atriz que não pede licença pra entrar no palco
Mas o palco estava cheio demais de pessoas e memórias
Atropelei todas na ânsia de chegar
Mesmo não sendo minha vez entrei mais uma vez
e duas e três e...
o palco permaneceu cheio
meu peito vazio
Coração derramando entre os dedos.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Nem frio nem quente
Nem saudável nem doente
Nem lúcido nem demente
Nem aqui nem lá
Nem cinza nem chama
Nem passado nem presente
Nem presente nem ausente
Nem verão nem inverno
Nem céu nem inferno
Nem céu nem terra
Nem paz nem guerra
Nem amigos nem amantes
Nem depois nem antes
Nem tarde nem cedo
Nem coragem nem medo
Nem água nem fogo
Nem alívio nem sufoco
Nem sim nem não
Nem fome nem pão
Nem mentira nem verdade
Nem discrição nem alarde
Nem silêncio nem som
É desse entre-lugar que quero fazer nascer
algo de bom 
É desse entre-lugar que posso te querer
sem te desejar
É desse entre-lugar que vou te ver
sem te enxergar. 
Poderia mas não pode 
Seria mas não é
Deveria mas não deve
Teria mas não terá
Queria mas eu quero
Estaria mas não estava
Apertaria mas não apertei
Comeria mas não comeu
Sentiria mas senti
Nunca um futuro me pareceu tão pretérito. 

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

o primeiro fio de cabelo branco apareceu na minha cabeça
um dente da frente sofreu uma erosão
essa ruga entre os olhos está cavando uma maior seriedade
não vai conseguir
ainda sou a mesma garota
com olhar estrelado e sorriso parábola
algumas dores são mais intensas, é certo,
outras menos
o tempo me mudou
eu também cansei e me mudei
mas ainda sou a mesma
garota provinciana de Santa Felicidade
e cidadã dos mundos de fora
desejando ardentemente viver.
E quiçá eu serei uma velha mulher
com menos dentes, cabelos brancos
e senhora dos meus mundos de dentro
desejando ardentemente
ardentemente
e artemente
viver. 


Preciso ser caverna,
grita o corpo dela
Ser estátua
Casco de tartaruga
Tatu em bola
Pedra
Gaveta fechada
Bandeja de gelo
Anestesia
Ensimesmado, este corpo clama:
Me ouça
Não consigo ser sol hoje
Multidão
Orelhas
Voz
Riso
Palavra
Movimento
Erupção
Só consigo ser dormência
Demência
Latência
Impotência
Ausência
Extinção
Me deixa ser só
solidão hoje?
Amanhã lhe trago de novo
o carro do Sol
Hoje não. 



quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Poros abertos
Mas nada de trocas gasosas para além da pele
Respiração anelídea, protista, porífera
Nada chegando ao pulmão
e atingindo o coração
Não!
Quero apenas deixar entrar e sair
pelo órgão mais rente ao exterior
Pele
Porque quando atinge a corrente sanguínea
há mais riscos
Quando entra na circulação
o coração bate mais
Quando entra na circulação
a respiração é mais profunda
Quando entra lá dentro
enfim, "entra dentro"
E depois para sair
É um pedaço pra fora batendo 

terça-feira, 29 de outubro de 2019


Senti tua barba não pinicar meu rosto 
Senti teu olho mergulhar no meu
Senti tua língua falar a minha
E as veias das tuas mãos saltarem pra eu não te escapar
Senti você dentro de mim
E fora e dentro 
E fora do peito meu coração bateu
Senti tudo aquilo que se sente quando se sente tudo.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Andei numa estrada longa
Senti cada pedra desse chão
Pedras pontiagudas, arredondadas
lisas, escaldantes, úmidas, gélidas, cortantes
Nem sapatilha de solado fino
Mas os dois pés fincados
Naquilo que fica
depois que só fica o pó

Senti o salgado da lágrima na língua
Descobri que cada gota me fez sentir menos
Descobri que até os amigos cansam da nossa dor
Ao menos o álcool não cansa
Descobri que até nós cansamos da nossa dor
O grau máximo da solidão: abandonados até de nós mesmos

Ao menos a natureza para nos tocar...
Beijou-me demoradamente a chuva na face
Brincou a brisa com os meus cabelos
E cada folha que me conheceu
contou-me um segredo
Mas eu não ouvi nada
porque não entendo a língua dos outonos
Nunca precisei aprender a abandonar
Mas agora de repente
Eis que preciso

O tempo, senhor da morte,
disse-me que a hora é agora
Reluto entretanto e penso na semana passada
no mês que se foi
na vida que passou
Reluto entretanto e penso na próxima semana
no ano que vem
no dia que nunca virá
Reluto pelo hábito de relutar
Reluto pois ainda estou de luto
Reluto porque não desisti de lutar
Acostumada a túneis invisíveis e prolongados que sou
Sei que um dia os ultrapasso
Sei que um dia será outro o passo
com sapatos de bailarina

que minha mãe para mim sonhou. 

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Sale!!! Rebajas!!! Promoção!!!
95 poemas pelo preço de nenhum!!!
Aqui tem amor de graça
Pode pegar, largar, ficar, gostar, odiar
Pode doar, revender se apertar demais
Se ficar muito largo
Se marcar muito o corpo
Se as cores não combinarem
Se não for teu estilo
Há sempre o poema certo pra alguém
Eu só estou baixando tanto o preço
Porque a crise tá braba
Dá pra viver disso não
E também tô me mudando
Aproveite
95 poemas pelo preço de nenhum
É promoção!



No more poetry
Enough is enough

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Ela virou um
alfinete fincado
no mapa-múndi dele.
Na minha casa quando as pessoas choram, alguém pergunta se ficaram bem no dia seguinte
Na minha casa como há carinho e querer-se bem, mesmo quando o contrariamento e o desapontamento acontecem, as pessoas esforçam-se para resgatar os laços e desatar os nós
Na minha casa pelo fato de as pessoas terem vivido uma história importante juntas elas sentem a necessidade de demonstrar consideração e amizade
Na minha casa as pessoas dizem Olá pela manhã e Bons sonhos à noite
Na minha casa tudo pode ser esquecido e superado porque há afeto
Na minha casa ninguém quer ver ninguém sofrendo
Na minha casa as pessoas mandam mensagens quando estão longe dizendo que preocupam-se
Na minha casa as pessoas se importam.
Queria que o mundo fosse mais parecido com minha casa
Mas vejo que não.


terça-feira, 8 de outubro de 2019

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Eu quero ter o corpo da mulher que sou:
uma mulher de quase 40
que viveu.
Uma barriga de quem carregou outro ser
e que teve muita ansiedade depois de parir
Nádegas de quem comeu algumas coisas que lhe fizeram feliz
(ou muitas...)
Seios tal qual a natureza modelou
E quando eles caírem saberei que vivi.
Quero ter o rosto vincado de rugas de quem interpretou personagens dramáticos 
E rugas de quem muito riu de si.
Quero ter um corpo marcado pela minha história
Não quero apagá-la
cirurgicamente
botoxicamente
lipoaspiradamente
Um corpo revelador das alegrias e agruras
que tive e tenho
Com cicatriz de cesárea complicada
Com seios pequenos que amamentaram e deram prazer
Com uma ruga na testa que atesta as angústias do viver
Com as dores na coluna que carrego desde a infância
Com as cores e odores que me definem
Com as curvas e retas que meu corpo pôde desenhar nas entrelinhas do meu passado e do meu presente
Sobretudo quero que esse corpo ame muito.
Sinta muito.
Seja muito
acalentado, respeitado, desejado 
E que quando chegar a hora de ir,
seja recolhido e acolhido pela terra 
que lhe deu tanto de comer
que lhe deu tanto de viver
que lhe deu tanto. 

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Lentamente as coisas voltam para seus lugares originais. Os cacos grudam-se em pratos, os talheres ganham a gaveta, os sapatos as caixas, os vestidos, jeans e blusas os cabides adequados. Lentamente e de nenhuma outra forma os livros enfileiram-se nas estantes, as panelas lavam-se e guardam-se, os perfumes fecham-se e a pasta de dente terminada vai para a lixeira. Remédios vencidos separados. Papéis importantes arquivados. Ou descartados. O ar da casa é renovado. A bagunça, organizada, a sujeira, aspirada, e os sentimentos confusos se esvaem no ar. Para todo o idílico sempre que dura até a próxima faxina.
Minha traquéia amanheceu tomada por  uma imensa escada de mármore com aproximadamente 3 toneladas, incalculavelmente íngreme. Agora o ar já não consegue entrar com facilidade. Ele precisa subir degrau por degrau e para cada um seu esforço é hercúleo. São degraus altos, mal projetados, inacessíveis. O pulmão sofre com essa demora toda. O corpo todo. 
Quem pus essa escada aí posso tirar logo, por favor?

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Acordo e começo a olhar o mundo pelos teus olhos. Abro-os lentamente tentando imaginar como você olharia as coisas desse quarto. Que olhar lançaria para as paredes, os móveis, como se olharia no espelho. Respiro imaginando tua respiração. Sorrio o teu sorriso com todas as rugas que permitem a criação de um sorriso, e mais algumas pois você usa mais que a média.  Choro tua lágrima, embora nunca tenha te visto chorar. Mas imagino e é bonito. E por alguns instantes eu sou você. Exatamente a essa hora você acorda e começa a olhar o mundo pelos meus olhos. Abre-os lentamente tentando imaginar como eu olharia as coisas desse quarto. Que olhar lançaria para as paredes, os móveis, como me olharia no espelho. Respira imaginando minha respiração. Sorri o meu sorriso com todas as rugas que permitem a criação de um sorriso, e mais algumas pois eu uso mais que a média. Chora minha lágrima, embora nunca tenha me visto chorar. Mas imagina e é bonito. E por alguns instantes você sou eu. Exatamente a essa hora acordo e começo a olhar o mundo pelos teus olhos.
oi! sim, estou bem,
obrigada por perguntar
e querer bem
e você?
gladiador de si mesmo,
conseguindo esquecer?
esquecer de qual parte?
tudo? ou só metade
da metade?




terça-feira, 1 de outubro de 2019

Ontem o homem do amendoim contou que duas meninas morreram afogadas aqui em Arraial. Eu perdida em devaneios enquanto a vida se impõe violentamente contra duas jovens vidas.
Para mim, um teste. Tirei nota baixa, posso recuperar. Para elas a prova final. Não passaram.
Hoje é o primeiro dia de um silêncio indefinido.
Melhor que infinito. 
Eu sempre vendo o otimismo na probabilidade. 

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Hoje a tristeza não me caiu bem. Não serviu nem pra parir poesia. Dor de parto sem parto.
As lágrimas escorrem no rosto furtivas
denunciam essa dor
Esse mar primordial de águas antigas
quanta lágrima já não presenciou?
Pra ele não é nenhuma novidade
Sou só mais uma
Comum
Pra mim sou a única
criatura do planeta a me condoer
Mas o mar é generoso
e me dá a ler 
seus pergaminhos brancos
como já fez centenas de bilhões de vezes
e ri de mim com risadas azul-verdes:
"Calma, menina, a vida é mais,
tudo encontra direção 
anda pra frente e pra trás 
às vezes para em círculos
pra testar nossa espera
Olhe lá, esse buraco é mais fundo
só sinta pena de quem nunca se perdeu
porque é sinal que só nadou no raso
desconhece o que é
profundo". 

domingo, 29 de setembro de 2019

O que era pra ser
entre eu e você
ficou perdido
em algum lugar
de um passado alternativo
mas a gente nem se conheceria
se nossos futuros não tivessem existido
Portanto, corrigindo:
O que era pra ser
entre eu e você
ficou perdido
em algum lugar
de um futuro alternativo
que pra piorar
deve ter sido só imaginação minha
Como pode um futuro alternativo imaginário doer mais
que realidade?

Se eu ficar assim bem quietinha
sem me mexer
o coração dói menos?
Tenho em meu horizonte a contínua suspeita
de que alguma doença grave muito grave me espreita
mas nunca nada acontece
A grande ironia da morte é me manter assim submissa a esse medo todo
A grande ironia da vida é viver viver viver até morrer.
Esse buraco negro está me sugando aos pedaços
Buraco sádico e psicopata
Arranca o coração
com requintes de crueldade
O que sobrará
pra bater aqui?
Devolve!
Leva outra coisa em troca
quem sabe um pedaço da minha boca
e da língua
Quem sabe um olho
as pontas dos meus dedos e
orelhas
um pedaço das costas
joelhos
uma nádega
mamilos
um calcanhar?
Qualquer outra coisa
será mais fácil
Mas meu coração preciso inteiro
porque se eu não puder mais amar
não vou saber mais viver
nem vou querer mais saber. 
O primeiro pensamento da manhã voa na tua direção
Passarinho de asa curta e canto desafinado
Sonhando com voos impossíveis
O segundo pensamento da manhã
Lavar o rosto
Que olheiras
A marca do sabonete
Você
Tocando a minha pele e deixando
Seu perfume e dizendo
Que linda 
Terceiro pensamento do dia 
Janelas para o 
Mar!
Mar!
Quanto azul dentro desse teu olho
Mexe com minhas águas internas
Me revira
Me desorienta
Me esvai
Me repele
Me pele
Me invade
Me arde o peito o dia inteiro
Entra na minha comida
Na minha roupa
Na minha toalha
Na luz dos meus olhos
Na minha escuridão
Na minha poesia
Penso o dia inteiro em escrever
Pra desgastar esse nó
Pra ver se ele solta
e me devolve o ar
e me devolve a paz. 

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Eu vi o amor que nascerá
entre mim, eu, tu e você
Eu sei naquele instante que a vida vai mudar
E que meu peito teu foi ocupado por ti e você
Amava demais e quem nunca (?) quando soubesse que será a última vez
Tudo o que eu pensarei foi transpassado por essa história
E agora o que quero não é mais o que eu quiser
porque se tornaram quereres juntos
Meu teu nosso de nós dois
e do mundo inteiro
que imaginará que a gente bem sempre se quis
Quem suporta abrir as comportas do sonho
Abrir as compotas de sonhos
Comportar sonhos?

terça-feira, 17 de setembro de 2019

funda cicatriz
a atriz hoje se ri
mas foi por um triz

Hoje sou praia sem mar
Rainha sem castelo
Cavaleiro sem espada
Clave de sol em chuva 
Sustenido sem bemol
Noite sem luar
Hoje sou dor sem ai
Olhar vendado
Sangue parado
Círculo quadrado
Abraço sem tato
Cavalo de perna quebrada
Canoa furada
Caminho sem direção
Amanhã isso passa
A manhã logo vem
Ou não.  

Inconstante como o tempo atmosférico da cidade que habito
às vezes lantejoula colada em fantasia de carnaval
outras caída no chão da Sapucaí
dia de sentir ar puro florestal no meio do tráfego paulista
dia de sofrer até encher cisterna
Queria uma constância que não consta em peitos como o meu
inconstantes
Queria ter tempo de trocar de pele antes
pra não sentir tudo em carne viva
Mas parece que nunca dá tempo
Ou é hábito fazer com que nunca dê?
Inconstante como o tempo subjetivo desse corpo que me habita.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Ainda
Ainda isso tudo aqui
Nada finda
Nada findou por aqui
Finda um dia
Recomeça no outro
Ainda essa sensação
De saudade misturada com
dor misturada com
sonho misturado com
ainda isso
Ainda a inquietude
Ainda A coisa pressionando o caminho entre a garganta e o estômago
Ainda A coisa deixando a minha respiração sôfrega
Ainda A coisa
E uma vontade de desaguar nesse mar
de desaguar
de desaguar
e diluir
Silêncio
Meu deserto não sabe ser tão seco
Minhas palavras escapam quando estou dormindo
Minha alegria me trai
Não sei deixar de estar
Não sei deixar estar
Não sei deixar
Deixar...
Deixar
desaguar...
Água, mais água,
por favor
Ainda a sede.


quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Teus olhos dois cenotes
onde moro perenemente
onde morro permanentemente
encarnações sucessivas
por afogamento
choque térmico
parada cardíaca
sacrifício maia
desilusão

Sou Eva de Naharon
lá perdida há mais de 13000 anos
lá encontrada
sou tantas evas que se lançaram
e acharam que dava pé
que se lançaram
e bateram a cabeça nas pedras
que se lançaram
porque sabiam nadar
que se lançaram
porque não tinham medo
de ir até o fundo do poço
elas amavam
que se lançaram
porque viram sua imagem
narcisamente refletida
na margem

dois olhos verdes
onde eu me perco
onde eu procuro peixes ouro
e encontro e não encontro
onde eu me perco
e não enxergo saída
onde eu me perco
e me acho tanto




Olhos que batem asas para o azul
e (re)pousam em sonhos
Movimentam caudas em rios
e piscam demorado para a água (es)correr
Abrem-se em espanto enxuto
e (ex)cedem a luz dos meus dias

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Esse corpo teu:
infinitos eixos de simetria
com o meu
Nossas curvas de largura
seguem constantes
Nossos encontros: fora dos quadrados
Somos círculos sem arestas, sem vértices
sem submissão a esquadros
Somos linha infinita
que gira sem obstáculos
Equador
Novelo de lã
Raio da manhã circunavegando
Globo
Se você segue a leste
e eu a oeste
nos encontramos numa linha imaginária
em Greenwich
Nus sem nós
Eu cá, você lá
Espelho, espelho meu
Todo
simetria.
Jô.S.eB.
Tentar fugir disso é como tentar fugir das leis da gravidade
Se eu me jogar vou inevitavelmente cair no chão 
Se eu voar alto uma hora
chão

Fugir disso é como me esconder do tigre dentro da caverna do leão.
O coração da mulher bomba explode em cacos pontiagudos no centro de palcos
Sangra vinho tinto pelos dedos
e chupa-os

Não tem parada nem dono
Sorve até o último gole e parte em busca de outros cenários
Vampira

Coração bomba que já nada bombeia
Não é sangue
é vendaval
o que corre em suas veias. 



O medo nunca impediu ninguém de morrer ou adoecer, só mesmo de viver.
Pare de ficar parado em minhas veias, daqui a pouco você vai virar trombose e pode até me matar
Ah peito
Aperto
Há jeito
Vem perto

Ah dor
Ardor
Assopra
Amor

Ah ora
Agora
Me abre
Me goza

quarta-feira, 28 de agosto de 2019


A palavra avó arrasta os pezinhos no chão e tenho medo que escorregue nas lisuras do papel
Cria pinguins no alto de geladeiras
Coleciona bombons em potes plásticos para adoçar netos insossos, azedos e apimentados
É uma palavra que encolheu com o tempo mas seu coração encoberta céu
A palavra avó não nasceu com asas mas v-o-a, ó!

A palavra criança está sempre descalça com uma mãe atrás pedindo para pôr chinelo
Derruba farinha em bacias para misturar com pedras do jardim
Cria minhocas em copos de suco
Quer vestir cinco camadas de roupas favoritas de uma só vez em dias de verão
Faz exatamente o que mandam suas letras: cria, cria e nunca cança, ops,
nunca canssa, ops, nunca cansa, nunca, nunca, nunca, n u n c a...

A palavra mãe faz carinho nos cabelos da gente
e mesmo sendo tão pequena consegue a façanha de dar 100 voltas em torno da Via Láctea e voltar no mesmo dia
Ela é mais eficaz que todos os planetas juntos
É tanto sol que deixa a gente até queimada se não usar um protetor
E dá vontade de ser Terra: girar pra sempre em torno dela de tanto amor

A palavra existência é comprida mas dependendo pode até ser curta
Ela existe ou não, esse é o xis da questão
Tem ai, ixe... mas insiste
O seu acento circunflexo às vezes a protege de temporais
Mas nunca de experiências
A não ser que já seja ex a ex-istência

A palavra vida dá vontade de beber de um gole só
Sorri sem dentes e chora com e sem razão
Passa fome e no outro dia come muito brigadeiro
Sonha em se casar e se formar e viajar e ter um filho e e e e e
Fica doente e quase morre e quase vive e
quer abraçar a existência inteira
Mas também o além dela – a(há) vida após a vida (?)
A palavra vida é gulosa, hiperbólica, vibra, transborda, chega até a borda pula
e acaba.







sexta-feira, 23 de agosto de 2019

você protege seu coração a sete chaves
não se deixa sucumbir jamais
Eu já corro na frente do tanque de guerra
completamente nua
não sei ser menos
ou pouco
Isso não é nenhuma vantagem competitiva
afinal objetivamente eu vou morrer antes, bem antes
e você vai envelhecer lentamente.
Ao menos terei menos tempo para lembrar
você, a vida inteira procurando as chaves...

Ama?
Ama não!
Não amazônia!
Amar assim?
Ô...
A mania de sempre virar
zona
Ai...
Dói...
Mas...
Tem quem ama
Tem quem soma
Tem quem quer amar
zônia
E quem não quer
Azar
Asco
Asas
pra zoar
em outro lugar
pra lá
pra lá
bem pra lá da Lá-pônia.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Eu te amo no medo de te perder
No medo de você não voltar hoje
Te amo na comida deliciosa que você faz
No nosso sexo com gosto de casa
Eu te amo nas folhinhas dos calendários passados
Nos olhares dos nossos retratos 
No meu vestido branco e no teu terno listrado
e principalmente na ausência de ambos
No jardim inteiro do qual somos guardiões amorosos e atentos
Eu te amo naquilo que via em você que não sei se via ou supunha
num tempo em que boa parte da gente era fantasia e possibilidade
Eu te amo no teu abraço de urso mais polar que o próprio urso polar
Nesse aconchego
onde eu chego, viro concha e chamo lar
E a gente pode até se mudar daqui pro outro lado do Atlântico
Você ainda continuará sendo casa
E a gente pode até virar asa cada qual no seu ponto cardeal
você terá sempre essência de amor
E a gente pode até não mais ser casa e nem amor
só passado e dor
Mas até essa dor passa
E fica o bilhetinho dessa viagem dividida apertado na palma da mão
E ficam as linhas da mão depois que o bilhete esmigalhar
E fica no ar o aroma de um amor
E fica no amor tudo o que seja mar. 

quarta-feira, 14 de agosto de 2019


Corpo fechado

Viver no mundo como nele entrei:
de cesária
sem túneis apertados e empuxos
sem saber que era minha hora
Agendada.
Viver no mundo
Sem sobressaltos, sem enganos, mudanças de planos
saber exatamente onde, como e por que chegar
e chegar.
Viver no mundo sem deixar o fogo me alcançar
em 1º, 2º ou 3º grau,
sem deixar o fogo me colher em cinza
sem deixar a cinza me assoprar em terra.
Viver no mundo como quem prevê fortes turbulências de avião, de balão, de nave espacial
Desistir ave em tempo ufa.
Viver no mundo como quem sabe que se há bom, há sempre mau tempo logo em seguida,
levar casaco, guarda-chuva, protetor, ventilador e escafandro na mochila.
Viver no mundo sem entregar jamais o jogo
Saber piscar certeiramente, saber desviar o olhar
Guardar, disfarçar, jamais gritar
Viver no mundo sem me deixar trespassar
tanto
saber fugir a tempo
saber esquecer rápido
saber deixar pra lá
pra depois
pra nunca mais
pra depois do fim
Receita de viver em paz.
Receita de sobreviver a mim.
Ave
Ufa.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Quando eu disser oi tudo bem?
Na verdade estou dizendo
Dói, você lembra?
E você vai responder tudo e você?
Vou responder também tudo
(porque ainda lembro: tudo)
E quando você me perguntar e aí o que tem feito
Direi muito trabalho vida corrida
Na verdade estou dizendo
sinto saudades nem sei do quê
E eu vou te perguntar e você como anda?
Mas na verdade estou perguntando e você, ama?
E você vai falar dos projetos e das suas correrias
E eu vou dizer é a vida uma loucura
E o que quero dizer nessa hora é isso mesmo.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

As jornadas 
Os jornais 
nada sana andas ais


O colírio
Os olhos
risos ocos socos colos


A liberdade
Os corações
rebeldes licores caos e lições


A verdade
A solidão
relva verde sol e vão


Os invernos
Os sorvetes
verso inverso sorver-te


Os dias
As coisas
ascos saias sais e asas


O temporal
A tempestade
rola tempo esta tarde 


Os fundos
As correntezas
correm nuas tesas certezas


A operação
As ambulâncias
óperas ambulam ânsias


O desespero
A metafísica
cais espero perto fica

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Fala inflamada

Tem po mada?
Tempo...
Precisava falar
pra desinflamar
Mas o que eu queria mesmo
era inflamar
queria mais flama
mais ardor
é violento 
o que sinto 
é labareda
abala o ar
não arreda
arde
viola
incha
Poética chama
palavra inflamada
de quem infla em flama
ama 
não é 
amada

tem
po.


 



terça-feira, 6 de agosto de 2019


In-vazão

Minha vela está no toco
e ainda está acesa
Meu corpo está no tronco
eu não vou gritar
Minha vida por um fio
passo-a entre os dentes
Meu peito ferido, fendido
sem cadeado, senha, tetra
Minha rima não combina
a metáfora suporta
Minha casa foi invadida
eu mesma abri a porta.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Bom andar por caminhos diferentes
ter dúvidas
pra onde vou
pequenas ansiedades
surpresas
sou nova por aqui
tudo é justificável
entrar na contramão
errar a direção
não sei como funciona
Ser estrangeira tem seu lado bom
quando se permite ser
quando se permite se perder
antes de se encontrar
E ao voltar
pra casa
passado o calor, o aconchego
ninho
dá vontade de partir de novo
afinal sou passarinho
não ovo.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Teu olho ficou preso no âmbar da minha íris
Há 100 milhões de anos
Conservado e descoberto por paleo-iridólogos pós-modernos
Teu DNA em mim cravado
Aquele que determinou essa sua cor de águas perigosas
(mas essa é outra pré-história)
A ciência pós-moderna detecta
É mesmo o teu olho preso no meu
Cristalino
Cristalizado desde o cretáceo
Ou jurássico?
Jura?
Cristalizado por acaso
Por sorte, má sorte
e ambas
Quem diria que tanto tempo passaria
E ele ainda estaria
Ali
Preso em âmbar
Quem diria que por um segundo de distração
Eu sofreria tamanha refração
Minha vista já não mais alcançou
A exata noção dos fatos
Tudo se anuviou desde então
Teu olho desfocou o meu
Teu olho virou pedra incômoda
virou paisagem perdida
virou fotografia que eu queria
ver esquecida, concluída
destruída
mas essa minha maldita íris...
Achou a cor do teu olho tão água corrente
leu nos fractais da tua íris uma beleza inocente...
Seria mesmo possível?
O pior cego é aquele que vê e não acredita.
Mas a ciência é exata e precisa
Faz descoberta de encher os olhos:
fóssil em âmbar
de um amor perdido
de uma história que nem começou
e que provavelmente
nem tenha existido.

terça-feira, 30 de julho de 2019

Teu verbo
em meu verso
eu aceito
mas cuidado
não é recreio
me leva a sério
mesmo se brinco
eu não sou fácil
e nem queria
No escuro
me encontra
teu tato
mas cuidado
não vem a jato
vem a cavalo
trote agradável
sou eufemismo
não sou hipérbole
e nem queria
Em sonhos
me despe
sem cuidado
sem censura
nem frescura
nada é sério
é recreio
vem a jato
vem a jegue
vem hipérbole
faz hipismo
em mim
abro o verbo
verso fácil
agradável
eufemismo
sim

sábado, 27 de julho de 2019


Eu disse que não era hora dos olhos fazerem xixi,
vazou.
Eu proibi a dor de me pegar
ela é desobediente.
Eu botei o medo de castigo,
fugiu.
Eu tentei guardar tua foto no último álbum,
pulou pra frente.
Eu fingi que o mal estava tudo bem,
confessou.
Eu esqueci que ela tinha ido embora pra sempre,
fiz seu café da manhã favorito.
Eu parei de regar minhas saudades,
floresceram.
Eu joguei os cacos na lixeira,
eles se grudaram em vaso.
Eu pensei que o sol me aqueceria,
a chuva me alagou.
Eu tapei meus olhos pra não doer,
as lentes pretas estilhaçaram.
Eu estou no meio da floresta,
esqueci os pedacinhos de pão.
Eu me segurei pra não cair,
a fenda se disfarçou de chão.
Eu disse que não sabia,
a verdade é que eu sei,
mas preferia
não saber.

sexta-feira, 19 de julho de 2019


Carta ao 

Poeta, perdoe-me a intromissão, 
sua poesia precisa sim tocar, mas também rasgar, atravessar, sim sangrar,
talvez precise de mais grito
mudo. 
Escrever poesia com um pedaço de vidro fincado na mão?
Depois de um soco no estômago?
Escrever poesia clandestina, proibida, roubada, 
despoliticamente correta
seria mais arte?
Escrever na mesa de cirurgia cardíaca
bater um coração em cada tecla acompanhando se o cursor 
ricocheteia
escrever com medo de que alguém leia
correndo todos os riscos
de morte e de vida
escrever poesia de amor caída
no meio fio
com frio
sozinha
sem ninguém pra sentir pena
escrever poema
em dia de visita íntima à prisão
mãospeitospernasfluidospelostoquesgozodesesperado
tempo esgotado.
Escrever versos na beira do precipício
no fundo do edifício
no meio do tráfego
na casa de repouso
no açougue 
o cheiro vermelho da carne exposta,
disposta, crua, tão fresca, tão morta
tão viva.
Escrever como quem tira sangue 
como quem procura a veia de novo e de novo e de novo
não há veias...
Por onde circula meu sangue?
Dentro da minha caneta.
Escrever poema pra uma 
gozando na outra e na outra e na outra
e no outro
escrever versas pra corpas nuas
marcadas
alijadas
aleijadas
sujas
usurpadas
escrever poemas de amor
Toda poesia no fim se trata de amor.
Quatro cápsulas ao dia:
para acordar, para dormir
para respirar, para não enlouquecer, poesia.
Posso servir-te como inspiração
usa meu corpo para falar dessa dor
usa meu corpo para navegar nas tuas linhas
eu o empresto a você.
Me pinta com palavras em preto, tristes e belas
me pinta como eu sou e não como você me vê
me olha de novo
e de novo para ter certeza
talvez alguma arte
aí 
aconteça.






Hoje passei na frente da capela onde nos casamos
Senti saudades de nós
Senti pena do que nos tornamos
Tentei voltar pra descobrir em que trecho nos perdemos
mas a rua só ia.

Hoje passei na frente da capela onde nos casamos
Senti pena do que éramos
Novos, bobos, distraídos
Senti saudades de te ver agora
Hoje, já, agora
Homem feito
Sentir tua barba por fazer no meu rosto
Teu cheiro de fruta madura
No ponto mais do que perfeito.


Hoje passei na frente da capela onde nos casamos
Não senti nada.
Ocupações

Dentre tantas coisas importantes
decidi uma firmemente:
não mais me ocuparei de você.
Me ocuparei mais do voo dos pardais
das amoras que amadurecem no pé
se vai ter ou não noite estrelada
se já é hora de cortar a grama
se o carteiro já passou essa semana
Me ocuparei bem mais
se a jabuticabeira passou a noite com frio
se o vento me cochicha no ouvido um arrepio
se o inverno me gela até a alma e devo me agasalhar melhor
e onde foram parar minhas meias de lã
Me ocuparei, sim, muito mais
de olhar o céu e esperar por aviões
de procurar o Cruzeiro do Sul
e outras constelações
de verificar se há vazamentos
de observar qual a direção dos ventos
de cortar as unhas dos meus pés
de  pesquisar a tábua das marés
de tomar remédios nos horários
de alimentar os gatos que não  tenho
Me ocuparei bem mais
de esquecer
de esquecer
e de tanto me ocupar de esquecer
talvez o esquecimento
se ocupe mais
bem mais
de mim.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Entre-amor

Amaria se pudesse...
Ah Maria!
Amaria suas mãos
nas minhas camas-de-gato
o molinho da sua orelha
tal qual mão de bebê na mãe
os contornos do seu rosto
cada linha, vinco, cova
Amaria se pudesse seus olhos
detidamente e diligentemente
os desenhos das íris
e amaria meu reflexo nelas
Narciso!
Amaria se pudesse os seus cabelos
me escorregariam suas ondas
me esconderiam seus túneis
Amaria suas pintas
com dedicação cirúrgica
seus cheiros
atrás das orelhas, peito, virilhas
Amaria suas sobrancelhas
e todas as suas entrelinhas
Amaria se pudesse sua boca
Ah Maria, essa eu amaria tanto!
Essa seria céu e inferno
noivado e casamento
seria berço, travesseiro
barco, cobertor, avião...
Amaria se pudesse amá-la
mas não posso
Então amo-a assim mesmo
com devoção sacerdotal
Amo-a pelas frestas e cantos
bordas e beiras
pelos vãos das portas
pelas cantoneiras
pelas clarabóias
Amo-a pelas descosturas
pelos avessos
pelas chaminés, pelos favos das
cortiças
pelos buracos das tomadas
das torneiras e fechaduras
Amo-a pelas grades e pelas treliças
pelos pelos, pontas, poros
Amo-a pela distância exata
entre uma célula e outra
Amo-a pelos microscópios
pelos telescópios
pelas lentes míopes
Amo-a por entre restos, por entre
sobras e sombras
por entre notas musicais de meio
tom
Amo-a entretramas dos tecidos mais
finos
Amo-a pelos intervalos,
entremeios, entremares
Amo-a hoje, já, jamais
E entre tantos entres,
tantos
Amo-a entre o não e o mais.



segunda-feira, 15 de julho de 2019

Tempo de camélias

Pé de camélia no vaso à espera
do milagre
Brotos sonhando camélias vermelhas
no azul
Camélias crianças sorrindo dos brotos
que foram um dia
Camélias secas saudosas de seu
passado vermelho
Meu rosto vincado que me olha
do espelho
me pergunta se ainda é tempo
Meu rosto menina na flor da idade
me olha da foto e pergunta:
onde estarei eu um dia?
O sulco da testa atesta seriedade
e sisudez
As rugas em volta da boca me dizem
eu fui feliz.
O tempo correu demais?
Já passa das onze? Há tempo?
Sou velha?
Camélia de bronze despregando do galho...
Sou nova?
Broto sonhando em abrir olhos de mundo...
O que sou?
Camélia na flor da meia-idade
Sonhando com o broto que foi
Temendo o bronze que vem
E esquecendo que
vermelha é.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Amor, amor, amoras
Onde moras?
No quintal da minha memória
Amora com gosto de pé na terra
Cheiro de outro pé no galho
Olho de mão que alcança
Um punhado
E balança...
Chuva de amoras
No telhado do vizinho
Amora carimbando o meu rosto
E na idade de ser abelha
Batom de amora
Pra casamento atrás da porta
Namora ou não namora?
Amora que, vermelha, demora
Vê se cresce e empretece
Na mão da menina que espera
Que tem pressa de viver
O tempo tudo amadurece, ora!
Agora é a vez de outra flor
Alcançar o mesmo-outro galho
Pela frente tanta amora.
Pela frente tanto amor.

domingo, 7 de julho de 2019


a dor do nunca mais é difícil demais
a dor do nunca mais me faz chorar, calar
perder a paz
a dor do nunca mais te
ver, te ouvir, te ter aqui
fez buracos incomensuráveis
sinto mil vontades de parar o tempo
pra decorar o teu rosto
pra te conhecer de novo
uma vez mais


Como manter viva a memória de uma vó para uma neta?
Como manter viva a memória de uma neta de 2 anos sobre uma avó com quem ela conviveu 1 ano e meio?
Botões, fotos, correntes
Perfume, anéis, uma escova de cabelo ainda com alguns dos seus fios
vermelhos
Pão quebrado na tigela com leite
Herança da mãe da mãe.
Como explicar para onde ela foi tão de repente?
Cadê o céu
Tá lá, ó
Foi voando?
Foi sim, por que não?
Filha, essa é a coleção de botões da mamãe
Tem botões que eram da sua vó, presentes da bisavó
Agora pertencem a você!
Cada botão dessa caixa
Vale um infinito inteiro
Te dou, minha filha o infinito
Guarda e faz dele tua morada
Quem coleciona botões de avó
Sabe ser casa
Quem costura o infinito no peito*
Não tem medo de nada.


* Referência a verso de Hilda Hilst


Quando te cubro na hora de dormir, filha
Lembro de quando eu era só filha
E minha mãe toda noite me cobria.
Quando você diz que tem medo, filha
Lembro que eu também tinha
E que minha mãe dizia que não precisava ter,
Mas hoje sei que ela também sentia
Mesmo sem transparecer.
E a mãe da mãe dela, minha vó, sentia
E a mãe da vó também.
Quando você está doente, filha
Vejo minha mãe chorando por mim
enquanto dizia que tudo estava bem.
Quando te olho, filha
Vejo minha mãe me vendo
Vejo a minha avó vendo minha mãe
Vejo minha bisavó vendo minha avó
Vejo gerações de mulheres intensas e fortes
Que viveram e deixaram viver
E todas essas mulheres habitam em mim
Habitam, filha, em você.
Nunca estaremos sozinhas...
Porque tua pele é a minha
Porque eu sonho também os sonhos teus
Porque minha voz te canta
Nunca estaremos sozinhas...

Morrer é viver ao contrário. Viver de frente pra trás até chegar a ser um punhado de semente de novo. Morre uma avó e nasce uma neta. Morre uma estrela e nasce uma flor. A vida sempre encontra o caminho. A vida sempre volta ao início. A vida não tem game over. 

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Corre magma no meu corpo quando lembro da gente
Queima as peles
de fora e de dentro.
Você vira pedra
eu fornalha
Você extravaza
eu queimadura de todos os graus
Você rocha, quebra
eu derreto em lava
Ambos somos cinzas
quando tudo isso acaba.

Para Flora com amor

Escrevo teu nome no ar e só depois eu respiro