quarta-feira, 28 de agosto de 2019


A palavra avó arrasta os pezinhos no chão e tenho medo que escorregue nas lisuras do papel
Cria pinguins no alto de geladeiras
Coleciona bombons em potes plásticos para adoçar netos insossos, azedos e apimentados
É uma palavra que encolheu com o tempo mas seu coração encoberta céu
A palavra avó não nasceu com asas mas v-o-a, ó!

A palavra criança está sempre descalça com uma mãe atrás pedindo para pôr chinelo
Derruba farinha em bacias para misturar com pedras do jardim
Cria minhocas em copos de suco
Quer vestir cinco camadas de roupas favoritas de uma só vez em dias de verão
Faz exatamente o que mandam suas letras: cria, cria e nunca cança, ops,
nunca canssa, ops, nunca cansa, nunca, nunca, nunca, n u n c a...

A palavra mãe faz carinho nos cabelos da gente
e mesmo sendo tão pequena consegue a façanha de dar 100 voltas em torno da Via Láctea e voltar no mesmo dia
Ela é mais eficaz que todos os planetas juntos
É tanto sol que deixa a gente até queimada se não usar um protetor
E dá vontade de ser Terra: girar pra sempre em torno dela de tanto amor

A palavra existência é comprida mas dependendo pode até ser curta
Ela existe ou não, esse é o xis da questão
Tem ai, ixe... mas insiste
O seu acento circunflexo às vezes a protege de temporais
Mas nunca de experiências
A não ser que já seja ex a ex-istência

A palavra vida dá vontade de beber de um gole só
Sorri sem dentes e chora com e sem razão
Passa fome e no outro dia come muito brigadeiro
Sonha em se casar e se formar e viajar e ter um filho e e e e e
Fica doente e quase morre e quase vive e
quer abraçar a existência inteira
Mas também o além dela – a(há) vida após a vida (?)
A palavra vida é gulosa, hiperbólica, vibra, transborda, chega até a borda pula
e acaba.







sexta-feira, 23 de agosto de 2019

você protege seu coração a sete chaves
não se deixa sucumbir jamais
Eu já corro na frente do tanque de guerra
completamente nua
não sei ser menos
ou pouco
Isso não é nenhuma vantagem competitiva
afinal objetivamente eu vou morrer antes, bem antes
e você vai envelhecer lentamente.
Ao menos terei menos tempo para lembrar
você, a vida inteira procurando as chaves...

Ama?
Ama não!
Não amazônia!
Amar assim?
Ô...
A mania de sempre virar
zona
Ai...
Dói...
Mas...
Tem quem ama
Tem quem soma
Tem quem quer amar
zônia
E quem não quer
Azar
Asco
Asas
pra zoar
em outro lugar
pra lá
pra lá
bem pra lá da Lá-pônia.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Eu te amo no medo de te perder
No medo de você não voltar hoje
Te amo na comida deliciosa que você faz
No nosso sexo com gosto de casa
Eu te amo nas folhinhas dos calendários passados
Nos olhares dos nossos retratos 
No meu vestido branco e no teu terno listrado
e principalmente na ausência de ambos
No jardim inteiro do qual somos guardiões amorosos e atentos
Eu te amo naquilo que via em você que não sei se via ou supunha
num tempo em que boa parte da gente era fantasia e possibilidade
Eu te amo no teu abraço de urso mais polar que o próprio urso polar
Nesse aconchego
onde eu chego, viro concha e chamo lar
E a gente pode até se mudar daqui pro outro lado do Atlântico
Você ainda continuará sendo casa
E a gente pode até virar asa cada qual no seu ponto cardeal
você terá sempre essência de amor
E a gente pode até não mais ser casa e nem amor
só passado e dor
Mas até essa dor passa
E fica o bilhetinho dessa viagem dividida apertado na palma da mão
E ficam as linhas da mão depois que o bilhete esmigalhar
E fica no ar o aroma de um amor
E fica no amor tudo o que seja mar. 

quarta-feira, 14 de agosto de 2019


Corpo fechado

Viver no mundo como nele entrei:
de cesária
sem túneis apertados e empuxos
sem saber que era minha hora
Agendada.
Viver no mundo
Sem sobressaltos, sem enganos, mudanças de planos
saber exatamente onde, como e por que chegar
e chegar.
Viver no mundo sem deixar o fogo me alcançar
em 1º, 2º ou 3º grau,
sem deixar o fogo me colher em cinza
sem deixar a cinza me assoprar em terra.
Viver no mundo como quem prevê fortes turbulências de avião, de balão, de nave espacial
Desistir ave em tempo ufa.
Viver no mundo como quem sabe que se há bom, há sempre mau tempo logo em seguida,
levar casaco, guarda-chuva, protetor, ventilador e escafandro na mochila.
Viver no mundo sem entregar jamais o jogo
Saber piscar certeiramente, saber desviar o olhar
Guardar, disfarçar, jamais gritar
Viver no mundo sem me deixar trespassar
tanto
saber fugir a tempo
saber esquecer rápido
saber deixar pra lá
pra depois
pra nunca mais
pra depois do fim
Receita de viver em paz.
Receita de sobreviver a mim.
Ave
Ufa.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Quando eu disser oi tudo bem?
Na verdade estou dizendo
Dói, você lembra?
E você vai responder tudo e você?
Vou responder também tudo
(porque ainda lembro: tudo)
E quando você me perguntar e aí o que tem feito
Direi muito trabalho vida corrida
Na verdade estou dizendo
sinto saudades nem sei do quê
E eu vou te perguntar e você como anda?
Mas na verdade estou perguntando e você, ama?
E você vai falar dos projetos e das suas correrias
E eu vou dizer é a vida uma loucura
E o que quero dizer nessa hora é isso mesmo.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

As jornadas 
Os jornais 
nada sana andas ais


O colírio
Os olhos
risos ocos socos colos


A liberdade
Os corações
rebeldes licores caos e lições


A verdade
A solidão
relva verde sol e vão


Os invernos
Os sorvetes
verso inverso sorver-te


Os dias
As coisas
ascos saias sais e asas


O temporal
A tempestade
rola tempo esta tarde 


Os fundos
As correntezas
correm nuas tesas certezas


A operação
As ambulâncias
óperas ambulam ânsias


O desespero
A metafísica
cais espero perto fica

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Fala inflamada

Tem po mada?
Tempo...
Precisava falar
pra desinflamar
Mas o que eu queria mesmo
era inflamar
queria mais flama
mais ardor
é violento 
o que sinto 
é labareda
abala o ar
não arreda
arde
viola
incha
Poética chama
palavra inflamada
de quem infla em flama
ama 
não é 
amada

tem
po.


 



terça-feira, 6 de agosto de 2019


In-vazão

Minha vela está no toco
e ainda está acesa
Meu corpo está no tronco
eu não vou gritar
Minha vida por um fio
passo-a entre os dentes
Meu peito ferido, fendido
sem cadeado, senha, tetra
Minha rima não combina
a metáfora suporta
Minha casa foi invadida
eu mesma abri a porta.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Bom andar por caminhos diferentes
ter dúvidas
pra onde vou
pequenas ansiedades
surpresas
sou nova por aqui
tudo é justificável
entrar na contramão
errar a direção
não sei como funciona
Ser estrangeira tem seu lado bom
quando se permite ser
quando se permite se perder
antes de se encontrar
E ao voltar
pra casa
passado o calor, o aconchego
ninho
dá vontade de partir de novo
afinal sou passarinho
não ovo.

Para Flora com amor

Escrevo teu nome no ar e só depois eu respiro