quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Para Flora com amor

Escrevo teu nome no ar e só depois eu respiro

Far, far

O tempo esfarelou todas as coisas. Ontem mesmo eu caminhava até a casa dos tios, ao lado da minha, descia um degrau até os fundos e entrava na casa da minha avó. Nunca mais a avó de novo. O tempo a esfarelou. Sua máquina de costura já não pedala mais nossos retalhos de uma vida inteira o que restou? O fundo dos meus olhos? Um jeito solto de rir? Que o tempo também esfarelará. A casa da infância ainda lá , de pé meio caindo aos retalhos, mas dentro dela o que há? Uma mãe minha não mais há. Ela havia há um tempo no quintal, fumando seu cigarro de hora em hora na frente de casa tragando uma calma que não era sua, uma mãe havia dentro da novela em seu sofá, em sua cama quentinha que de repente tornou-se fria. O tempo esfarelou-a. Implacavelmente. O que restou? Um jeito de colocar a filha pra dormir, de proteger, de estar perto. Um jeito que esfarelará. Como a cama, a casa, o degrau, a máquina de costura, o cigarro, a novela, o sorriso. Até que o tempo Implacável também não haja. Esfarele-se. Far, far...

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Poema microscópico

 













                                                                                             .

sábado, 25 de janeiro de 2025

Por que o teatro?

Por que teatro, a diretora perguntou 

Eu respondi algo que não sei se lembro, mas agora, pensando bem, responderia que eu teatro pra morrer um pouco menos por dia, morrer mais lento

Eu teatro pela lou cura de uma vida menos ordinária 

Eu teatro porque gosto de ser saboreada por olhos e ouvidos 

Eu teatro pra fazer a vida mais vasta

Pra dividir essa intensidade toda que carrego e que me pesa

Pra transgredir o que eu mesma achei que não podia, pra me testar, pra me dizer: eu não falei

Eu teatro pra fazer sentido e não fazer nenhum

Pra obedecer ao corpo que (é) chama

Pra meu corpo habitar outras formas de vida

Pra sentir aquela dor da agonia antes da goza. 

Mas amanhã vou responder outra coisa. 

Ando tão emimesmada

que corro o risco de tropeçar 

em mim. 

Para Flora com amor

Escrevo teu nome no ar e só depois eu respiro