quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Far, far

O tempo esfarelou todas as coisas. Ontem mesmo eu caminhava até a casa dos tios, ao lado da minha, descia um degrau até os fundos e entrava na casa da minha avó. Nunca mais a avó de novo. O tempo a esfarelou. Sua máquina de costura já não pedala mais nossos retalhos de uma vida inteira o que restou? O fundo dos meus olhos? Um jeito solto de rir? Que o tempo também esfarelará. A casa da infância ainda lá , de pé meio caindo aos retalhos, mas dentro dela o que há? Uma mãe minha não mais há. Ela havia há um tempo no quintal, fumando seu cigarro de hora em hora na frente de casa tragando uma calma que não era sua, uma mãe havia dentro da novela em seu sofá, em sua cama quentinha que de repente tornou-se fria. O tempo esfarelou-a. Implacavelmente. O que restou? Um jeito de colocar a filha pra dormir, de proteger, de estar perto. Um jeito que esfarelará. Como a cama, a casa, o degrau, a máquina de costura, o cigarro, a novela, o sorriso. Até que o tempo Implacável também não haja. Esfarele-se. Far, far...

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