segunda-feira, 9 de novembro de 2020

 Rebola, rebola mais que dançarina de grupo de pagode

Acorda, organiza, organiza enquanto acorda, organiza enquanto sonha, levanta administrando horários, necessidades

Mãe, vamos brincar

Sim

Café

Sim

Lá fora

Sim

Lava as mãos, álcool gel, limpa a mesa, o almoço, abre a geladeira, não tem carne, improvisa, segue o baile

Rebola, bola você sabe rebolar

E depois ainda quem vai ter coragem de falar que as nádegas não estão firmes?

Ela própria, sobe no aparelho, faz exercício, alonga, dor nas costas, põe salompas, corre, é hora do almoço, troca o desenho, chega de desenho, mãe e o suco, com canudinho, responde mensagem, trabalha enquanto trabalha, prepara o material pra aula on-line, limpa a boca da criança, limpa a bunda da criança, abraça muito, brinca mais, corre, medita, respira, escreve poesia e lista de coisas pra fazer, roupa pra guardar, verdura pra lavar na água sanitária, faltou água, escreve pras amigas, máquina de lavar parou, o mundo continua girando, girando, girando, girando... Um dia inteiro já passou mas nem é meio-dia. Rebola, rebola, rebola...

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Devagar 

Vagar

Vaguear

Vaga

Vagabundear


Aprender a dar espaço para o nada

Abrir vagas onde não há

Vagar sem e com rumo

Ruminar o tempo

Estudar a lentidão

Vagabundear por decisão

De cisão com o frenético

Notação musical para compassos de silêncio

Devagar com o andor

de vagar com a dor.

domingo, 4 de outubro de 2020

Cada vez que passo os olhos por essa tela em branco na correria de tantas correrias tenho vontade de congelar o tempo e parar. aqui. só parar. e jogar letras fora. e dentro. e no ar. e dentro do meu olho. mesmo que a mão grite tendinite a cada 30 segundos/digitação. ainda. a vontade de me pronunciar, de não me eximir, de não me encolher. de não passar backspace ou delete em mim. ainda. a urgência de não passar pela vida em brancas nuvens. nem brancas telas. ainda a vontade de borrar o mundo com alguma palavra em preto. a vontade de bater o coração nas teclas, a vontade de dizer alguma palavra impronunciada. de dizer.

 

apesar de saber que o que tenho pra escrever tem mais a ver com folha em branco que em preto, esse cursor não desiste e continua a bater cardíaco me insinuando a dizer. até mesmo quando eu ponho ponto. 

 


quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Depois que nasci mãe, 

as fibras do meu coração esticaram, 

se contorceram, 

se derreteram e inflamaram para ser 

colchão, ancoradouro,

saliva, 

redoma e aragem 

para outro 

coração.


sábado, 12 de setembro de 2020

Eu viro sombra 

eu viro resto

eu viro poça

eu viro pó 

eu viro pedra 

e rachadura 

eu viro sobra 

eu viro nó 

eu viro caso

eu viro caos 

eu viro casco

eu viro Jó 

eu viro coma 

eu viro como 

eu viro poço 

eu viro só 

Em dias em que cada fibra flecha

cada poro queixa

cada pelo berra

em dias em que o corpo parece 

terra arrasada 

cenário de guerra 

onde uma equilibrista de vidro capenga

dança na corda

cai de cena

e parte a plateia de pena.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Com o celular na mão procuro por respostas improváveis de se achar em uma rede impessoal que se sente íntima de mim

Não tenho mais punho para toda  essa tendinite

Não tenho mais peito pra toda a minha vaidade

Exijo um amigo que me meça o quanto eu acho que valho 

Só pra responder que não mereço

Não tenho vontade de responder mensagens

Não tenho forças para sentir o de sempre de novo

Não estou convencida de saber mais sobre nada

Principalmente sobre mim

Meu corpo só pede um copo

E um pouco de torpor

Estou vazia de me sentir tão cheia.




quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Eu tenho a necessidade de sentir meu corpo ser experimentado pela arte

Eu tenho a necessidade de sentir meu corpo ser diluído, ser dissolvido e reconstituído 

de sentir meu corpo ser elevado a altas temperaturas e depois ser resfriado pela arte

de sentir meus olhos serem atravessados e enxergados

de sentir meu peito ser inundado, afogado e salvo, diagnosticado e medicado pela arte

de sentir meus pés serem enlameados, andarilhados

meu corpo ser desvertebrado, contorcido e alongado pela arte

de sentir meus pelos serem acariciados e arrancados 

e minha boca ser lambida, mastigada, engolida

pela mesma arte que me humaniza e que me transpassa com flechas invisíveis

pela mesma arte que me faz tão uma, tão nenhuma, tão todo mundo.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Será que lágrimas podem afogar alguém de Escorpião ou Peixes? 

Fogueiras podem queimar um ser de Áries ou Leão?
Pra Virgem ou Capricórnio também cai o chão?
E falta ar pra algum dos Gêmeos?
Eu não sei
Eu não sei
Eu só sei que ter signo, ascendente, Lua, Vênus, Marte e todo o sistema solar em tantos signos do Zodíaco
Se não mata
Fortalece. 


 Coração em ardência

em ânsia
em anseio
em espanto
em desgraça
em espera
em jornada. 
Lembrar de desmarcar o cardio. 
Bate. Acho. 


anseio
sei
teu seio no meu
tua noite raiando meu dia
teu medo apertando minha mão
teu silêncio averbando minha palavra
tua língua contornando meu céu aberto
e salivando outros céus por aí
escuros e brilhantes
como os de deserto. 

Estou aqui. Estamos. Sentindo. Inundando. Secando. Queimando. Lá fora sempre os trinados treinados para a arte de amar. Um pedreiro martela. Lembro daquela frase: se tens um martelo na cabeça, todos os problemas são pregos. Vejo tanto isso ao meu redor... Me pego pensando se já não me tornei a pessoa que jamais queria ser. Me pego desejando apagar essa última frase afinal não, o ego não dá conta de reconhecer. Que ego dá? 

Há quem se sinta suficientemente pronto, analisado, criado. Todos nós não enxergamos o que os outros enxergam. Todos nós nos tornamos um pouco daquilo de que fugimos. Uma música caipira toca ao longe. Mal consigo ouvir mas sei que é caipira pois os violões da família me ensinaram cedo. Carros. Carros. Olho o chão sujo limpado há quatro dias. Lembro de todas as mães do mundo reclamando da repetição doméstica. Estou parada aqui por esse instante pois no próximo voltarei a me esquecer para poder seguir. Pois no próximo voltarei a viver para poder morrer. Pois no próximo serei de novo aquele papel fino de convite de casamento que após ser admirado vai cerimoniosamente pra gaveta. 

Quer coisa mais emblemática do que uma criança que pede a caixa do Natal e coloca enfeites no quarto? 

Como alguém consegue ler Clarice em uma única vida? Eu paro por semanas nas mesmas páginas pra sentir o sabor delas em todas as partes da língua. Cada vez as palavras dançam pra mim e trocam de lugares. Eu leio Clarice como se lê Bíblia, abro os livros em uma página sorteada e lá eu paro procurando um algo que fale pra mim uma coisa que preciso ou que não preciso ouvir. E tudo me captura. Tanto que não consigo ler nada dela até acabar. Como ler o infinito até o fim?

 Às vezes a gente precisaria marcar horário pra chorar

Lembro de uma amiga que falava que às vezes chorava de manhã por ter que sair da cama

Uma jeito de se preparar pra essa vida louca

O que pode acontecer em um dia?

Eu estava saindo pra ir à casa dela quando soube que ela morreu

Eu ia vê-la, abraçá-la... e ela já não estava mais lá pra sentir esse abraço e esse olhar

Talvez até estivesse

Mas objetivamente não

A vida é o que acontece enquanto pensamos na vida

A vida é o que acontece enquanto vivemos

Depois... sobra mistério!

Queria tanto te ver hoje

Na tua casa.


 Me senti meio cachorro vagabundo quando a mãe se foi. Parece que não tinha mais nenhum lugar pra me abrigar nos domingos longos e sem almoço de mãe. Parece que não tinha mais pra quem chorar de graça a minha dor. Parece que ninguém mais me amaria sem razão. 

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

 Ah...Perséfone

Fugida do inverno

Fugida do inferno

Esperando por Céres

Esperando pelo tempo

do colo materno

Não quer mais ver céu de terra e raiz

Quer olhos sensíveis de luz

e de cor

Quer seis meses de ar

Quer cheiro de mato molhado

Enquanto espera

Chora tanto que talvez algum dia nasça planta no mundo subterrâneo

Espera enquanto

Chora tanto que me condoo

Pressentindo que sou tão Perséfone quanto Perséfone

hoje

esperando por amanhã

e amanhã

à espera de um ontem intangível

Pressentindo que estranha sina é essa

de ser gloriosa e miserável

de ser infinita e temporal

de ser tudo e nada

Centelha divina e ribanceira

Estranha sina minha

e de uma humanidade inteira

segunda-feira, 13 de julho de 2020


Dentro da cela de estar
Do parto de dormir
Do sanitório
Da sozinha
Sem pele-top
Com-puta-dor
Eu pego o meu se-anular
E pela banda mais estreita e sem graça do planeta eu grito
Ah, ao menos grito
Apesar de comprimidos
somos infinitos
(somos
infinitos?)

quinta-feira, 5 de março de 2020

Sobre saber das coisas
eu me encho de vazios
A vida me dá tantas voltas
Voltagens me deixam volátil
Queria eu ser bivolt
Valha-me, preto velho!
Uma vida revestida
de vezes, reveses, vieses
vasos de porcelana
vazamentos
viscosidades
vastidões e vazios
verossimilhanças inverossímeis
vagões vagantes
vulgaridades extravagantes
Uma vida vislumbrada em vãos
de vozes infinitas que nem sei mais reconhecer por onde foi que vieram.
Absorvidas as culpas
Sorvida por completo a vida
Encharcada de nascente
e devolvida em securas murchas
Até ser confinada pelo tempo
em seus fins fingidos de começos
e suas violetas velhas demais
pra recordar.



quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020


esse cursor do computador bate cardíaco me insinuando a dizer
mas o que tenho pra escrever tem muito mais a ver com folha em branco
do que em preto.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020


é tanto que tenho aqui
dentro
que sinto espanto
em comportar esse tanto
portanto, eu me adianto
e transporto tudo tão pra dentro
que às vezes tento achar
e nem eu mesma encontro.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Antes hoje do que hontem
Antes agora que agoura
Antes vazado que vazio
Antes vertigem que virtuose
Antes sem juízo que ser juiz
Antes (acordar) tarde todo dia
Antes solidão que solidez
Antes liquefazer que liquidar
Antes Lúcifer que lucidez

Antes arrebatador do que nunca.
                                               
                                                 Jô.S.B.

Para Flora com amor

Escrevo teu nome no ar e só depois eu respiro