segunda-feira, 27 de maio de 2024

O peixe betta morreu hoje. Parece que morreu, tá lá parado no aquário desde ontem. Parou de comer faz 2 dias. A pequena pediu pra levar no veterinário. Expliquei que não atendem peixes... Já sentia uma crise interna tão grande por não ser Vegetariana e comer os primos , tios, tias de segundo grau , sei lá, daquele mesmo bicho que eu cuido. Ele era tão bonito, daquele azul beija- flor, sabe. Batia as nadadeiras rapidinho quando eu chegava com a ração. Era essa a nossa grande inte-ração,  nada mais e mesmo assim chorei. A morte dói. Ver um ser querido sendo reduzido a um pedacinho de corpo boiando na água ou deitado em uma cama ou em uma maca, ver um ser tão vivo ser reduzido a uma vaga lembrança parece a maior piada sem graça da história da humanidade. Parece desumano. Eu sei, a morte é a única certeza da vida, deveríamos tratá-la com mais naturalidade, mas sinceramente os únicos que a tratam com naturalidade são os que acreditam no depois. Ou seja, os que se recusam a crer no fim absoluto, os que percebem uma continuidade no fio da vida ainda que com outro corpo, outra experiência.

 O peixe beta morreu, 3 anos cuidando. Ontem vi um vídeo da Flora com pouco mais de 1 aninho em que a mãe surpreendentemente aparecia ao fundo. Ali ela voltou a respirar, a rir, a fazer graça. Voltou a bater suas nadadeiras no aquário da sua casa, festiva, amorosa, alegre, muito, muito alegre. Se mesmo uma pequena morte,  como a de um ser tão ínfimo como um peixe beta dói, imagina... Dói a morte da mariposa de Virginia, dói lembrar da única certeza. O que fazer? Nada. Ah, vamos viver, viver, viver, aproveitar... Sim, sim, mas agora é nada. Agora é tempo de doer e lembrar. De reunir nossos mortos favoritos numa lembrança terna e eterna, numa promessa de memória até que a gente mesma vire lembrança. Se tivermos sorte. E se dói, é bom lembrar que é culpa de uma capacidade extraordinária de amar. Ah mãe... A-mar. Que haja mar pra nós, pro peixe betta, pra filha, pra dias de sol, pra dias de chuva, pra mim, pra ti, pro fim. 

Para Flora com amor

Escrevo teu nome no ar e só depois eu respiro