O peixe betta morreu hoje. Parece que morreu, tá lá parado no aquário desde ontem. Parou de comer faz 2 dias. A pequena pediu pra levar no veterinário. Expliquei que não atendem peixes... Já sentia uma crise interna tão grande por não ser Vegetariana e comer os primos , tios, tias de segundo grau , sei lá, daquele mesmo bicho que eu cuido. Ele era tão bonito, daquele azul beija- flor, sabe. Batia as nadadeiras rapidinho quando eu chegava com a ração. Era essa a nossa grande inte-ração, nada mais e mesmo assim chorei. A morte dói. Ver um ser querido sendo reduzido a um pedacinho de corpo boiando na água ou deitado em uma cama ou em uma maca, ver um ser tão vivo ser reduzido a uma vaga lembrança parece a maior piada sem graça da história da humanidade. Parece desumano. Eu sei, a morte é a única certeza da vida, deveríamos tratá-la com mais naturalidade, mas sinceramente os únicos que a tratam com naturalidade são os que acreditam no depois. Ou seja, os que se recusam a crer no fim absoluto, os que percebem uma continuidade no fio da vida ainda que com outro corpo, outra experiência.
O peixe beta morreu, 3 anos cuidando. Ontem vi um vídeo da Flora com pouco mais de 1 aninho em que a mãe surpreendentemente aparecia ao fundo. Ali ela voltou a respirar, a rir, a fazer graça. Voltou a bater suas nadadeiras no aquário da sua casa, festiva, amorosa, alegre, muito, muito alegre. Se mesmo uma pequena morte, como a de um ser tão ínfimo como um peixe beta dói, imagina... Dói a morte da mariposa de Virginia, dói lembrar da única certeza. O que fazer? Nada. Ah, vamos viver, viver, viver, aproveitar... Sim, sim, mas agora é nada. Agora é tempo de doer e lembrar. De reunir nossos mortos favoritos numa lembrança terna e eterna, numa promessa de memória até que a gente mesma vire lembrança. Se tivermos sorte. E se dói, é bom lembrar que é culpa de uma capacidade extraordinária de amar. Ah mãe... A-mar. Que haja mar pra nós, pro peixe betta, pra filha, pra dias de sol, pra dias de chuva, pra mim, pra ti, pro fim.
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