sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Você quer me ter?

Mete nha. 

Que foda

Por que  me podas

E não me phodas

Você não era com h?

Nem precisa ser maiúsculo. 

Midas

Como não querer comer 

Como

Esse t é são 

Me vaza as sedes antigas

Como não querer engolir

Como

Ainda novinha sentia os pisca-piscas 

E não sabia que a sabiá phodia voar

Como não querer soltar

Como

E segurava as partes

Como se fossem d'ouro

Como estocar tanto

Se ouro só toco não como

Como?

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Ressignificar a vida na b

eira do abismo

É isso a v

ida esse ab

ismo essa beira

esse ressigni

ficar enquanto o tempo deixa en

quanto a gente p

ode a gente queria fic

ar pra sempre

a g

ente odeia as desped

idas, os fin

ais

E é uma capac

idade narr

ativa tão imensa essa nossa de vi

ver sabendo que tem um final

mente

uma vor

acida

de de fabula

ção,  

de invenção do cotidi

ano após ano

a gente cria prob

lemas pra pre

ocupar a vida, a gente c

ria o sentido, a f

alta dele, a gente re

cria nossa existência 

pra poder exist

ir.

E a gente é tão bom n

isso 

de aumentar nossas import

âncias e sent

idos e sabores e saberes e viveres

Mas a gente sabe a ver

dade, ah se sabe

Mas como 

ela 

d

ó

i. 



Quanto tempo essa árvore levou pra chegar até ali

Quanto tempo eu precisei 

Estou na metade da minha vida

Talvez menos 

Uma hora todas vamos embora

 Meu coração aperta de ver esses tiozinhos e tiazinhas de sapatos batidos, rostos de sol, carregando mochilas, sacos e garrafas pet de água


Hoje lembrei de uma única flor que nasceu em uma árvore e que não chegou a virar fruto, mas deixou o universo mais bonito em sua pequena existência. Daí lembrei daquela pintura de Klint que me faz pensar no quanto um único instante pode emoldurar nossa vida de beleza onírica. 


Eu sigo na vida com minhas flores e frutos de cá do muro com um milhão de medos e outro milhão de coragens e boas lembranças que vez em quando, sortuda, revisito. 


Você ainda existe ou estou te inventando? 

 A vida essa bichinha inquieta que nos acontece e que mal capturamos já está na hora de soltar

A vida esse animal feroz que veloz nos ataca sem trégua ou piedade de nossa pequenez

A vida esse sopro que olha ... onde estava mesmo? Apagou a vela. 

A vida esse amor louco, essa loucura, esse desejo, essa vontade de fazer tudo de novo e de novo, de recomeçar na folha branca

A vida esse sonho, esse pesadelo, esse lugar onde viemos parar sem pedir sem entender sem manuais sem paradeiro sem saber pra onde porquê e se

A vida esse tesouro raro, esse brilho, esse instante esse recém nascido no nosso peito esse idoso no leito 

de morte

A vida nosso maior azar

Nossa maior sorte. 

O que não tem

O que não tem reforma

O que não tem receio

O que não tem recanto

O que não tem recreio


Eu forma

Eu ceio

Eu canto

Eu creio


Não tem remédio

Que cure essa dor

O efeito é médio

Anestesiador

Não tem reparo 

Nem reparador

Não tem preparo

Nem preparador

Não tem disparo

Só disparador

Só diz para dor


O que não tem reparo

O que não tem recinto

O que não tem retorno

O que não tem retinto


Eu paro

Eu sinto

Eu torno

Eu tinto


O que não tem reverso

O que não tem relato

O que não tem remudo

O que não tem recato


Eu verso

Eu lato

Eu mudo

Eu cato


O que não tem recheio

O que não tem remanso

O que não tem relento

O que não tem reclamo


Eu cheio

Eu manso

Eu lento

Eu clamo


O que não tem retalho

O que não tem reforço

O que não tem rejeito

O que não tem repouso


Eu talho

Eu forço

Eu jeito

Eu pouso


Não tem remédio

Que cure essa dor

O efeito é médio

Anestesiador

Não tem reparo 

Nem reparador

Não tem preparo

Nem preparador

Não tem disparo

Só disparador

Só diz para dor


 A vantagem de uma não história é que ela pode ser todas as histórias

Vejo teus olhos em areias de desertos, nos fundos dos mares, nos fundos dos morros, nos céus de várias cores

Você pode viajar comigo pra qualquer lugar do mundo

Construir casas em cima de montanhas

Em ilhas desconhecidas

Em Vênus agora, Júpiter depois

Amar sem culpa, sem medo

Sem amanhã, nem ontem 

Querer sem papéis assinados, contas a pagar, realidades

Sem concretudes

Sem tédios

Sem cobertor

Sem sono

Sem remédios

Sem dor

Sem morte

Sem comida ou mesmo 

ar

Uma história não vivida pode ser todas as outras

Só não pode ser vivida. 



 Aceitar. Aceitar. Aceitar. Não acertar. Aceitar. 

O que sei?

O que sei? Meia dúzia de coisas. Mas eu me esqueço tanto delas. Esqueço que posso parar dois passos antes dos poços. Que preciso respirar a natureza mais de perto se não eu morro asfixiada rápido mais vezes. Que eu preciso deixar pra lá tanta coisa, coisa tanta pra lá, lá esse lugar maravilhoso longe. Mas que se eu deixar entrar daí é necessário urgente  um multiprocessador que funcione (e sempre é). Eu preciso estudar a lentidão com maior competência. E eu preciso aceitar tudo e todos e cada coisa e eu parte desse grande finito processo, do que apenas é, assim é assim. Mas eu não sei nada do que esqueço tudo. Mas no fundo eu sei. 


O que eu sei? Meia dúzia de nadas sobretudo. 


 Nosso caminho é uma estrada em direção ao cemitério. Acho que por isso fui morar tão longe de Sta Felicidade.  

 A morte existe porque dias de sol também cansam

Onde uma parada 

Uma paragem 

Um deserto

Um recôndito 

Um esconderijo

Um trem fantasma

Pra me esconder de mim?

O pior olho

O pior olho é aquele que vê muito

No fundo um olho assim tão fundo compromete o lugar cristalino da superfície 

Das leves miragens, das calmas paisagens 

Olho que pergunta incômodo

Olho que repara, enxerga e vê

o que não devia. 

Vivemos na era dos rasos razoáveis.


Pensamentos para espantar o desespero


1- Um tié sangue é a coisa mais linda para se lembrar em um dia que começa estranho. 

2- Mas a coisa mais linda do mundo mesmo é a minha filha rindo. Ou não rindo. É a minha filha. 

3-A ternura de dias ensolarados em que Flora e Rô vão pra água da praia da Fortaleza na maior alegria amolecem a dureza de dias cinza. 

4- O meu sorriso ao ver essa cena. 

5- Lembrar que o mundo é grande. 

6- E que se estou me sentindo tão minúscula talvez seja hora de partir para outras paragens. 

7- Paciência com o tempo das coisas e das outras pessoas, na maior parte desincronizado com o meu. 

8- Parar. Respirar. Caminhar. Ler. Dormir. Escrever. Escutar música. 

9- Nada vale a pena se a agonia não é pequena. 

10- Meu coração é passarinho. Na gaiola ou livre é decisão. 

11- Cuidar de mim para ficar bem de dia e de noite, para dormir em paz. A injustiça me tira o sono. As coisas que nunca mudam... Devo me desgastar tanto pra tão pouco? É justo me pôr em sacrifício? 

12- A reza preferida de uma pessoa pouco religiosa: Deus, dai-me a paciência para aceitar o que não posso mudar, coragem para mudar o que posso e sabedoria para distinguir uma da outra. 

13- Bem de perto tudo que parecia especial parece algo mais normal e corriqueiro do que a fantasia inventava. A grama ao lado tem erva daninha também. 

14- Nada vai mudar. Tudo vai mudar. O destino do pássaro está na nossa mão. 

15- Nada deveria atrapalhar meu sono e minha ida matinal ao banheiro. Volte 10 casas para reaprender as coisas básicas. 

16- Vale fugir. 

17- Não vale fazer de conta. Pra sobreviver vale. 

18- O amor é asa. 

19- Não temos todo o tempo do mundo, mas temos muito tempo. 

20- O 19 é mentira.

21- O que diz meu coração hoje? 

22- Se tenho medo de não raiar meu dia é porque hoje não vivi tudo ou hoje vivi demais? 

23- Eu achava que podia fazer a diferença.

24- Não tenho nada pra dizer, só o silêncio vai falar por mim. 

25- Odeio doer essa intensidade toda quando não serve nem pra poesia ruim. 

26- Percebi que me desvirtuei do título. Sou boa em me desvirtuar. 



O coelho cinza

 Eu vou abrir esses três gavetões entupidos de brinquedos, eu vou pegar todos eles e vou colocar um por um dentro de saco de lixo bem grande, que é pra você nunca mais brincar com nenhum deles, até porque você não brinca com nenhum mesmo!


Essa sou eu, mas poderia ser você, ela, você né, não? não mesmo? Tá, essa sou eu rugindo pra menina de quase 6 anos que já reclamou pela vigésima oitava vez cadê o meu coelho cinza, mamãe, que eu não sei, eu não sei o que que eu fiz com aquele maldito, aquela porcaria daquele coelho cinza, eu acho que eu doei, eu doei, vc tá entendendo que eu doei o coelho cinza...mas que agora, agora, o coelhinho cinza foi elevado à categoria de item mais fundamental dentre todos os bichos de pelúcia dos três gavetões entupidos. Daí parece que o nosso músculo cardíaco vai colapsar naqueles momentos específicos em que a gente prometeu, não a gente prometeu, a gente jurou que não faria igual à mãe, a gente ia fazer melhor, mas que a gente repete exatamente do mesmo jeito, como se fosse assim uma espécie de homenagem à própria mãe: ó, ownnnn, mãeinnn, obrigada, eu também sou louca exatamente como você!

 Eu não quero andar ali onde o prédio cobre o sol. 

 Sinto uma ternura tão grandes pelas gentes tão diferentes, estranhas andando na rua em suas loucurinhas!

Hoje vi um cara andando com máscara de cavalo. Não era Carnaval. Adoro gente doida. 


 A gente já é também aquilo que a gente quer ser. 


Querido Destino

 Querido Destino,

Eu quero morrer velha.

Grata,

B.


Querido Destino, 

De câncer não. 

Grata,

B.


Querido Destino, 

De engasgo não, por favor, me dá aflição. 

Grata, 

B. 


Querido Destino, 

Podendo evitar, 

Melhor.

Grata,

B.

Até a Terra

Até a Terra


De tanto se ater ao fato de a Terra ter aquilo que os demais planetinhas não têm

A Terra não há de mais ter

Não mais Terra...

Julgando-se superior aos demais Embora nem anéis possua 

e delire ser a lua toda sua

Até quando a Terra?

A Terra já erra

Se ficar-terrando, errando, 

como se FODA-SE amanhã!

Arre!

Aterrada

Enterrada

Falta ter ar. 

Desaterriza de seu próprio solo terrestre

E não há mais gravidade que possa sustentar o grave estado desta arte

Mas quem se importa?

Exausta a Terra diz:

Até.

Despenca ladeira universo abaixo.

Já era. 


(Até a Terra

Desterra) 


quarta-feira, 7 de agosto de 2024

sexta-feira, 21 de junho de 2024

 Quando rio alto estou tentando espantar a morte. 

Janela

Caminho pelas lajotas como quem procura padrões 

De longe, a luz do posto de gasolina me engana um entardecer às 23h30

Deixo-me levar porque é tão bonito...

Uma janela aberta, uma só

Um livro de reza convida os joelhos

Ecos de vozes, corredores profundos extensos

E a foto da moça pedindo silêncios

Coisas pioram de uma para outra 

Uma possível perna amputada aqui

Três stents em um coração ali

Intestinos, rins, estômagos, bexigas sem festa

Na loteria da morte ou da sorte

Uma janela aberta, uma só. 

segunda-feira, 27 de maio de 2024

O peixe betta morreu hoje. Parece que morreu, tá lá parado no aquário desde ontem. Parou de comer faz 2 dias. A pequena pediu pra levar no veterinário. Expliquei que não atendem peixes... Já sentia uma crise interna tão grande por não ser Vegetariana e comer os primos , tios, tias de segundo grau , sei lá, daquele mesmo bicho que eu cuido. Ele era tão bonito, daquele azul beija- flor, sabe. Batia as nadadeiras rapidinho quando eu chegava com a ração. Era essa a nossa grande inte-ração,  nada mais e mesmo assim chorei. A morte dói. Ver um ser querido sendo reduzido a um pedacinho de corpo boiando na água ou deitado em uma cama ou em uma maca, ver um ser tão vivo ser reduzido a uma vaga lembrança parece a maior piada sem graça da história da humanidade. Parece desumano. Eu sei, a morte é a única certeza da vida, deveríamos tratá-la com mais naturalidade, mas sinceramente os únicos que a tratam com naturalidade são os que acreditam no depois. Ou seja, os que se recusam a crer no fim absoluto, os que percebem uma continuidade no fio da vida ainda que com outro corpo, outra experiência.

 O peixe beta morreu, 3 anos cuidando. Ontem vi um vídeo da Flora com pouco mais de 1 aninho em que a mãe surpreendentemente aparecia ao fundo. Ali ela voltou a respirar, a rir, a fazer graça. Voltou a bater suas nadadeiras no aquário da sua casa, festiva, amorosa, alegre, muito, muito alegre. Se mesmo uma pequena morte,  como a de um ser tão ínfimo como um peixe beta dói, imagina... Dói a morte da mariposa de Virginia, dói lembrar da única certeza. O que fazer? Nada. Ah, vamos viver, viver, viver, aproveitar... Sim, sim, mas agora é nada. Agora é tempo de doer e lembrar. De reunir nossos mortos favoritos numa lembrança terna e eterna, numa promessa de memória até que a gente mesma vire lembrança. Se tivermos sorte. E se dói, é bom lembrar que é culpa de uma capacidade extraordinária de amar. Ah mãe... A-mar. Que haja mar pra nós, pro peixe betta, pra filha, pra dias de sol, pra dias de chuva, pra mim, pra ti, pro fim. 

Para Flora com amor

Escrevo teu nome no ar e só depois eu respiro