segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

De dia as coisas vão bem, à noite tudo me há sombra. 

Como se faz isso? Como se aceita a coisa como é. A Coisa. Como se aceita que não muda, que é isso, que a coisa se quebrou, se perdeu e agora é outra coisa, a mesma outra coisa, a que era que não volta. Como aceitar-se outra coisa e ainda assim enxergar um resquício da coisa antiga na coisa nova, como enxergar um vislumbre, uma anunciação, como se aceita a coisa como se ela própria se configurou sem sofrer tanto pela outra coisa passada, como se aceita até a última gota, em última instância, como se aceita que nada vai voltar ao que foi, como se põe em movimento depois disso e se desiste de consertar a coisa sem conserto, ainda que fosse necessário o reparo, nem sempre é possível reparar, então como se aceita exatamente como a coisa se apresenta e se segue e se segue e se chora até a última gota da madrugada e se aceita os compromissos e se aceita os comprimidos e se aceita que nem sempre vai ser possível deixar a coisa em boas condições e outras vezes vai ser, que aceitar é o que sobrou pra vida adulta, que as coisas têm limites, as coisas andam por si, não nos perguntam nossa opinião, as coisas são crianças crescidas. 

O que fazer com essa coisa que desaquieta os olhos e desordena os pensamentos presumidamente organizados, como se controla essa coisa que caminha sob minha pele e me arranca pela raiz e me sufoca, me asfixia, me afoga sorrateira a coisa? Queria só descansar meu corpo em uma cama, essa coisa tão ancestral. Como é linda essa coisa de deitar e dormir e sonhar, como sonhar é uma bela coisa a se permitir. Mas essa coisa aperta meu peito que chora baixinho por muito tempo porque caiu do ninho. Talvez assim caído, ferido, desenganado meu peito passarinho possa enfim parar com toda essa coisa e aceitar um remanso pra esse cansaço dessa coisa toda. 

O que fazer com toda essa escuridão?

Acender uma vela, óbvio 

Mas eu sou a cera 

Me amoleço, me derramo, me consumo 

Tão gás, tão líquida, derretida derrotada no prato.

O que fazer com esse medo todo?

Correr, é óbvio.

Fugir pra bem longe, me blindar, desaparecer, fingir coragens 

Mas eu sou escancarada, corpo lento, corpulenta

Não sei fugir sorrateira, virar as costas, desviar meus poros.

O que fazer com esse bicho aqui inquieto, enlouquecido, ferido aqui, esse bicho sem espécie, sem  nome, com fome que habita meu quintal

Matá-lo 

Como se mata a um mosquito

Eu sempre fui bem em matar mosquitos, talvez  minha melhor habilidade

Marcar minhas mãos com seus sangues de conta gotas

Como se por um único instante eu pudesse controlar algum destino. 

Como se eu pudesse e posso. O dos mosquitos.

E depois dormir, dormir,  dormir toda essa fúria desse sono perdido. 





Para Flora com amor

Escrevo teu nome no ar e só depois eu respiro