sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Eu quero ter o corpo da mulher que sou:
uma mulher de quase 40
que viveu.
Uma barriga de quem carregou outro ser
e que teve muita ansiedade depois de parir
Nádegas de quem comeu algumas coisas que lhe fizeram feliz
(ou muitas...)
Seios tal qual a natureza modelou
E quando eles caírem saberei que vivi.
Quero ter o rosto vincado de rugas de quem interpretou personagens dramáticos 
E rugas de quem muito riu de si.
Quero ter um corpo marcado pela minha história
Não quero apagá-la
cirurgicamente
botoxicamente
lipoaspiradamente
Um corpo revelador das alegrias e agruras
que tive e tenho
Com cicatriz de cesárea complicada
Com seios pequenos que amamentaram e deram prazer
Com uma ruga na testa que atesta as angústias do viver
Com as dores na coluna que carrego desde a infância
Com as cores e odores que me definem
Com as curvas e retas que meu corpo pôde desenhar nas entrelinhas do meu passado e do meu presente
Sobretudo quero que esse corpo ame muito.
Sinta muito.
Seja muito
acalentado, respeitado, desejado 
E que quando chegar a hora de ir,
seja recolhido e acolhido pela terra 
que lhe deu tanto de comer
que lhe deu tanto de viver
que lhe deu tanto. 

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