Andei numa estrada longa
Senti cada pedra
desse chão
Pedras
pontiagudas, arredondadas
lisas,
escaldantes, úmidas, gélidas, cortantes
Nem sapatilha de
solado fino
Mas os dois
pés fincados
Naquilo que fica
depois que só fica o pó
Senti o salgado
da lágrima na língua
Descobri que cada
gota me fez sentir menos
Descobri que até
os amigos cansam da nossa dor
Ao menos o álcool
não cansa
Descobri que até
nós cansamos da nossa dor
O grau máximo da
solidão: abandonados até de nós mesmos
Ao menos a
natureza para nos tocar...
Beijou-me
demoradamente a chuva na face
Brincou a brisa
com os meus cabelos
E cada folha que me conheceu
contou-me um segredo
Mas eu não ouvi
nada
porque não
entendo a língua dos outonos
Nunca precisei
aprender a abandonar
Mas agora de
repente
Eis que preciso
O tempo, senhor da morte,
disse-me que a
hora é agora
Reluto entretanto
e penso na semana passada
no mês que se foi
na vida que passou
Reluto entretanto
e penso na próxima semana
no ano que vem
no dia que nunca
virá
Reluto pelo
hábito de relutar
Reluto pois ainda estou de luto
Reluto porque não
desisti de lutar
Acostumada a
túneis invisíveis e prolongados que sou
Sei que um dia os
ultrapasso
Sei que um dia
será outro o passo
com sapatos de
bailarina
que minha mãe
para mim sonhou.
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