quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Andei numa estrada longa
Senti cada pedra desse chão
Pedras pontiagudas, arredondadas
lisas, escaldantes, úmidas, gélidas, cortantes
Nem sapatilha de solado fino
Mas os dois pés fincados
Naquilo que fica
depois que só fica o pó

Senti o salgado da lágrima na língua
Descobri que cada gota me fez sentir menos
Descobri que até os amigos cansam da nossa dor
Ao menos o álcool não cansa
Descobri que até nós cansamos da nossa dor
O grau máximo da solidão: abandonados até de nós mesmos

Ao menos a natureza para nos tocar...
Beijou-me demoradamente a chuva na face
Brincou a brisa com os meus cabelos
E cada folha que me conheceu
contou-me um segredo
Mas eu não ouvi nada
porque não entendo a língua dos outonos
Nunca precisei aprender a abandonar
Mas agora de repente
Eis que preciso

O tempo, senhor da morte,
disse-me que a hora é agora
Reluto entretanto e penso na semana passada
no mês que se foi
na vida que passou
Reluto entretanto e penso na próxima semana
no ano que vem
no dia que nunca virá
Reluto pelo hábito de relutar
Reluto pois ainda estou de luto
Reluto porque não desisti de lutar
Acostumada a túneis invisíveis e prolongados que sou
Sei que um dia os ultrapasso
Sei que um dia será outro o passo
com sapatos de bailarina

que minha mãe para mim sonhou. 

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