sexta-feira, 19 de julho de 2019


Carta ao 

Poeta, perdoe-me a intromissão, 
sua poesia precisa sim tocar, mas também rasgar, atravessar, sim sangrar,
talvez precise de mais grito
mudo. 
Escrever poesia com um pedaço de vidro fincado na mão?
Depois de um soco no estômago?
Escrever poesia clandestina, proibida, roubada, 
despoliticamente correta
seria mais arte?
Escrever na mesa de cirurgia cardíaca
bater um coração em cada tecla acompanhando se o cursor 
ricocheteia
escrever com medo de que alguém leia
correndo todos os riscos
de morte e de vida
escrever poesia de amor caída
no meio fio
com frio
sozinha
sem ninguém pra sentir pena
escrever poema
em dia de visita íntima à prisão
mãospeitospernasfluidospelostoquesgozodesesperado
tempo esgotado.
Escrever versos na beira do precipício
no fundo do edifício
no meio do tráfego
na casa de repouso
no açougue 
o cheiro vermelho da carne exposta,
disposta, crua, tão fresca, tão morta
tão viva.
Escrever como quem tira sangue 
como quem procura a veia de novo e de novo e de novo
não há veias...
Por onde circula meu sangue?
Dentro da minha caneta.
Escrever poema pra uma 
gozando na outra e na outra e na outra
e no outro
escrever versas pra corpas nuas
marcadas
alijadas
aleijadas
sujas
usurpadas
escrever poemas de amor
Toda poesia no fim se trata de amor.
Quatro cápsulas ao dia:
para acordar, para dormir
para respirar, para não enlouquecer, poesia.
Posso servir-te como inspiração
usa meu corpo para falar dessa dor
usa meu corpo para navegar nas tuas linhas
eu o empresto a você.
Me pinta com palavras em preto, tristes e belas
me pinta como eu sou e não como você me vê
me olha de novo
e de novo para ter certeza
talvez alguma arte
aí 
aconteça.






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