quarta-feira, 31 de julho de 2019

Teu olho ficou preso no âmbar da minha íris
Há 100 milhões de anos
Conservado e descoberto por paleo-iridólogos pós-modernos
Teu DNA em mim cravado
Aquele que determinou essa sua cor de águas perigosas
(mas essa é outra pré-história)
A ciência pós-moderna detecta
É mesmo o teu olho preso no meu
Cristalino
Cristalizado desde o cretáceo
Ou jurássico?
Jura?
Cristalizado por acaso
Por sorte, má sorte
e ambas
Quem diria que tanto tempo passaria
E ele ainda estaria
Ali
Preso em âmbar
Quem diria que por um segundo de distração
Eu sofreria tamanha refração
Minha vista já não mais alcançou
A exata noção dos fatos
Tudo se anuviou desde então
Teu olho desfocou o meu
Teu olho virou pedra incômoda
virou paisagem perdida
virou fotografia que eu queria
ver esquecida, concluída
destruída
mas essa minha maldita íris...
Achou a cor do teu olho tão água corrente
leu nos fractais da tua íris uma beleza inocente...
Seria mesmo possível?
O pior cego é aquele que vê e não acredita.
Mas a ciência é exata e precisa
Faz descoberta de encher os olhos:
fóssil em âmbar
de um amor perdido
de uma história que nem começou
e que provavelmente
nem tenha existido.

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