Entre-amor
Amaria se pudesse...
Ah Maria!
Amaria suas mãos
nas minhas camas-de-gato
o molinho da sua orelha
tal qual mão de bebê na mãe
os contornos do seu rosto
cada linha, vinco, cova
Amaria se pudesse seus olhos
detidamente e diligentemente
os desenhos das íris
e amaria meu reflexo nelas
Narciso!
Amaria se pudesse os seus cabelos
me escorregariam suas ondas
me esconderiam seus túneis
Amaria suas pintas
com dedicação cirúrgica
seus cheiros
atrás das orelhas, peito, virilhas
Amaria suas sobrancelhas
e todas as suas entrelinhas
Amaria se pudesse sua boca
Ah Maria, essa eu amaria tanto!
Essa seria céu e inferno
noivado e casamento
seria berço, travesseiro
barco, cobertor, avião...
Amaria se pudesse amá-la
mas não posso
Então amo-a assim mesmo
com devoção sacerdotal
Amo-a pelas frestas e cantos
bordas e beiras
pelos vãos das portas
pelas cantoneiras
pelas clarabóias
Amo-a pelas descosturas
pelos avessos
pelas chaminés, pelos favos das
cortiças
pelos buracos das tomadas
das torneiras e fechaduras
Amo-a pelas grades e pelas treliças
pelos pelos, pontas, poros
Amo-a pela distância exata
entre uma célula e outra
Amo-a pelos microscópios
pelos telescópios
pelas lentes míopes
Amo-a por entre restos, por entre
sobras e sombras
por entre notas musicais de meio
tom
Amo-a entretramas dos tecidos mais
finos
Amo-a pelos intervalos,
entremeios, entremares
Amo-a hoje, já, jamais
E entre tantos entres,
tantos
Amo-a entre o não e o mais.
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