terça-feira, 4 de julho de 2023

Noite funda e úmida 

Daqui de dentro o mundo não parece ter fim nem começo 

daqui de dentro as coisas só são,

sem disfarces, sem adornos

No breu só tato medindo palmos sem encontrar obstáculos 

No breu o Braille encontra parágrafos inteiros sem pontuações 

Daqui de dentro o fora é lenda

o tempo nunca foi fatiado 

a pele comanda o ritmo cardíaco

a pele sempre soube mais.  

 Coloquei os meus desejos mais perigosos e secretos pra dormir no seu berço.

Acalentei-os até mesmo com canções de ninar.

Alta madrugada eles em sombras vêm puxar meu pé, causar calafrios, pânico, me vandalizar...

Isso é forma de retribuir toda a minha dedicação?


A vida é uma festa

A vida é uma fresta

Um espanto

Um estrondo

É fragilidade impetuosa

É travessia e atravessamento.

A vida aFlora

A vida nem cabe num viver 

Chega na metade e parece que foi hoje cedo

E não foi?

Não foi.

A minha já faz 43 anos. 

Ou 34?

Gracias a la Vida,

A Mercedes,

A Henrique, 

Que me han dado tanto. 


A coruja tenta dormir, mas seus dois abajures iluminam fantasmas de divã

Coração divaga adivinhando constelações esquecidas

Não se constata a presença de estrelas cadentes neste céu tão azul, por favor, não insista

A claridade dos teus cabelos rivaliza com o solstício de verão

Ouço música bem alto pra despistar meus pensamentos barulhentos

Este mar está revolto e espuma contradições persistentes. 

 Hoje me oprime 

Amanhã também.

Não tenho a pretensão de alcançar esse lugar

de troféus e desertos. 

Que guarde seu latifúndio improdutivo 

como herança de si.

Eu tenho a palavra solta e vadia.

Eu posso colher a flor que recém abriu no jardim.

Eu quero beber sol, lamber nuvem...

Guardei meu arpão

deixei-me pescar 

Mas só depois de nadar meu coração em outras águas. 

Livre é quem escolhe suas navalhas.




quinta-feira, 28 de abril de 2022

Ah

Ah


O dia em que a poesia me tocou a ponta dos dedos eu senti o peito coagulado

Eu senti uma coisa que não ia nem vinha, não subia nem descia,

eu senti que precisava parar essa correria 

louca 

pra dizer.

E eu parei.

E eu disse. 

E o sangue correu.  

Ah como correu.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

 Rebola, rebola mais que dançarina de grupo de pagode

Acorda, organiza, organiza enquanto acorda, organiza enquanto sonha, levanta administrando horários, necessidades

Mãe, vamos brincar

Sim

Café

Sim

Lá fora

Sim

Lava as mãos, álcool gel, limpa a mesa, o almoço, abre a geladeira, não tem carne, improvisa, segue o baile

Rebola, bola você sabe rebolar

E depois ainda quem vai ter coragem de falar que as nádegas não estão firmes?

Ela própria, sobe no aparelho, faz exercício, alonga, dor nas costas, põe salompas, corre, é hora do almoço, troca o desenho, chega de desenho, mãe e o suco, com canudinho, responde mensagem, trabalha enquanto trabalha, prepara o material pra aula on-line, limpa a boca da criança, limpa a bunda da criança, abraça muito, brinca mais, corre, medita, respira, escreve poesia e lista de coisas pra fazer, roupa pra guardar, verdura pra lavar na água sanitária, faltou água, escreve pras amigas, máquina de lavar parou, o mundo continua girando, girando, girando, girando... Um dia inteiro já passou mas nem é meio-dia. Rebola, rebola, rebola...

Para Flora com amor

Escrevo teu nome no ar e só depois eu respiro