terça-feira, 4 de julho de 2023

No fundo a solidão é a única coisa sólida da vida

Na vida a solidão é a última visita de todas as horas

Nas horas em que a solidão é prato comido não resta ilusão.

De resto tudo invenção 

De resto nada resto

Rosto apagado

na multidão.

Suspensão.

Comeu suas emoções

Uma a uma

Naquele café da manhã

Naqueles longos cinco minutos de absoluta solidão

Comeu o prazer de ter feito seu primeiro pão 

E de escutar o mar e as crianças brincando logo ali

Perto o suficiente para se sentir em paz

Longe o suficiente para se sentir em paz. 

 Mãe: uma fotografia na sala

E uma vida de fotografias invisíveis pela frente.

A catadora Dora cata dor, adora a cata ora!

A catadora Dora não se chama Dora, não chora pra rimar, nem adora catar nada

mas cata dor, a sua e a minha

Ela passa pelo vidro da janela e puxa seu carrinho com bravura

Cata sua dor e rapidamente descarta-a

aprendeu a não doer por nada

Eu enquanto assisto a velha catadora penso em lições de alfabetização ridículas com a palavra catadora

Doendo uma dor privilegiada.

Ela tentou ensurdecer seus pensamentos barulhentos 

olhando as nuvens passarem, lentas,

sentindo que ainda há vento,

aventou: vai chover amanhã.

Ter um pedaço de grama sob seus pés é tudo o que mais poderia desejar 

depois de viver deixando cair balas de goma dos bolsos.

Ela sentiu como se já tivesse sentido tudo antes

mas só percebeu depois.

A vida a gente vive na hora

O que foi ou deveria ter sido é só matéria pra análise. 


Escrevo só pra continuar acreditando que só a palavra salva embora tantas vezes desacredite que haja qualquer forma de salvação que não seja só pela palavra. 

Que me salva. 

Jesus, isso soou religioso.  Credo cruz!

Ergo os olhos para os montes

De onde virá meu consolo?

O meu consolo vem dessas nuvens que passam

E de algum amor que fica. 

Para Flora com amor

Escrevo teu nome no ar e só depois eu respiro