terça-feira, 4 de julho de 2023

Uma vez a cor da colcha ou do papel de parede ou as cortinas ou o tapete da sala já nutriram assunto e ansiedades, hoje as importâncias torcidas ressecando no varal.

Uma vez uns nomes de livros e um tanto de instrução e umas certezas delicadamente arranjadas e servidas com patê de gorgonzola, hoje só aqueles bolinhos de chuva com banana pra aplacar essa fome medonha.

Uma vez algum confronto por razão a troco de uns trocados de eu não disse, hoje a vontade impossível de dizer grande coisa esse tanto porque era pouco o que bastava 

Sempre foi.


A vida é maravilhosa e assustadora e às vezes muitas eu nem sei o que fazer com ela sei que quero que dure que volte a vida eu nem sei como pegar se aperto fura se solto cai e preciso empregar a exata força necessária que poucas vezes vem e não posso gastar tudo num dia só porque tem amanhã mas queria tanto gastar tudo agora porque tenho tanta fome e sonho magicamente brotar do chão recomeços a vida se perco me acha se acho me engano se esqueço desliza se encasqueto me cansa tanto acordar cedo e de novo e de novo comer ovo e fazer as coisas e um ano após o outro desejos e temores será que sei fazer isso direito sem tutorial no YouTube,  alguém?

No fundo a solidão é a única coisa sólida da vida

Na vida a solidão é a última visita de todas as horas

Nas horas em que a solidão é prato comido não resta ilusão.

De resto tudo invenção 

De resto nada resto

Rosto apagado

na multidão.

Suspensão.

Comeu suas emoções

Uma a uma

Naquele café da manhã

Naqueles longos cinco minutos de absoluta solidão

Comeu o prazer de ter feito seu primeiro pão 

E de escutar o mar e as crianças brincando logo ali

Perto o suficiente para se sentir em paz

Longe o suficiente para se sentir em paz. 

 Mãe: uma fotografia na sala

E uma vida de fotografias invisíveis pela frente.

A catadora Dora cata dor, adora a cata ora!

A catadora Dora não se chama Dora, não chora pra rimar, nem adora catar nada

mas cata dor, a sua e a minha

Ela passa pelo vidro da janela e puxa seu carrinho com bravura

Cata sua dor e rapidamente descarta-a

aprendeu a não doer por nada

Eu enquanto assisto a velha catadora penso em lições de alfabetização ridículas com a palavra catadora

Doendo uma dor privilegiada.

Ela tentou ensurdecer seus pensamentos barulhentos 

olhando as nuvens passarem, lentas,

sentindo que ainda há vento,

aventou: vai chover amanhã.

Ter um pedaço de grama sob seus pés é tudo o que mais poderia desejar 

depois de viver deixando cair balas de goma dos bolsos.

Ela sentiu como se já tivesse sentido tudo antes

mas só percebeu depois.

A vida a gente vive na hora

O que foi ou deveria ter sido é só matéria pra análise. 


Para Flora com amor

Escrevo teu nome no ar e só depois eu respiro