terça-feira, 4 de julho de 2023

A vida é uma festa

A vida é uma fresta

Um espanto

Um estrondo

É fragilidade impetuosa

É travessia e atravessamento.

A vida aFlora

A vida nem cabe num viver 

Chega na metade e parece que foi hoje cedo

E não foi?

Não foi.

A minha já faz 43 anos. 

Ou 34?

Gracias a la Vida,

A Mercedes,

A Henrique, 

Que me han dado tanto. 


A coruja tenta dormir, mas seus dois abajures iluminam fantasmas de divã

Coração divaga adivinhando constelações esquecidas

Não se constata a presença de estrelas cadentes neste céu tão azul, por favor, não insista

A claridade dos teus cabelos rivaliza com o solstício de verão

Ouço música bem alto pra despistar meus pensamentos barulhentos

Este mar está revolto e espuma contradições persistentes. 

 Hoje me oprime 

Amanhã também.

Não tenho a pretensão de alcançar esse lugar

de troféus e desertos. 

Que guarde seu latifúndio improdutivo 

como herança de si.

Eu tenho a palavra solta e vadia.

Eu posso colher a flor que recém abriu no jardim.

Eu quero beber sol, lamber nuvem...

Guardei meu arpão

deixei-me pescar 

Mas só depois de nadar meu coração em outras águas. 

Livre é quem escolhe suas navalhas.




quinta-feira, 28 de abril de 2022

Ah

Ah


O dia em que a poesia me tocou a ponta dos dedos eu senti o peito coagulado

Eu senti uma coisa que não ia nem vinha, não subia nem descia,

eu senti que precisava parar essa correria 

louca 

pra dizer.

E eu parei.

E eu disse. 

E o sangue correu.  

Ah como correu.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

 Rebola, rebola mais que dançarina de grupo de pagode

Acorda, organiza, organiza enquanto acorda, organiza enquanto sonha, levanta administrando horários, necessidades

Mãe, vamos brincar

Sim

Café

Sim

Lá fora

Sim

Lava as mãos, álcool gel, limpa a mesa, o almoço, abre a geladeira, não tem carne, improvisa, segue o baile

Rebola, bola você sabe rebolar

E depois ainda quem vai ter coragem de falar que as nádegas não estão firmes?

Ela própria, sobe no aparelho, faz exercício, alonga, dor nas costas, põe salompas, corre, é hora do almoço, troca o desenho, chega de desenho, mãe e o suco, com canudinho, responde mensagem, trabalha enquanto trabalha, prepara o material pra aula on-line, limpa a boca da criança, limpa a bunda da criança, abraça muito, brinca mais, corre, medita, respira, escreve poesia e lista de coisas pra fazer, roupa pra guardar, verdura pra lavar na água sanitária, faltou água, escreve pras amigas, máquina de lavar parou, o mundo continua girando, girando, girando, girando... Um dia inteiro já passou mas nem é meio-dia. Rebola, rebola, rebola...

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Devagar 

Vagar

Vaguear

Vaga

Vagabundear


Aprender a dar espaço para o nada

Abrir vagas onde não há

Vagar sem e com rumo

Ruminar o tempo

Estudar a lentidão

Vagabundear por decisão

De cisão com o frenético

Notação musical para compassos de silêncio

Devagar com o andor

de vagar com a dor.

domingo, 4 de outubro de 2020

Cada vez que passo os olhos por essa tela em branco na correria de tantas correrias tenho vontade de congelar o tempo e parar. aqui. só parar. e jogar letras fora. e dentro. e no ar. e dentro do meu olho. mesmo que a mão grite tendinite a cada 30 segundos/digitação. ainda. a vontade de me pronunciar, de não me eximir, de não me encolher. de não passar backspace ou delete em mim. ainda. a urgência de não passar pela vida em brancas nuvens. nem brancas telas. ainda a vontade de borrar o mundo com alguma palavra em preto. a vontade de bater o coração nas teclas, a vontade de dizer alguma palavra impronunciada. de dizer.

 

apesar de saber que o que tenho pra escrever tem mais a ver com folha em branco que em preto, esse cursor não desiste e continua a bater cardíaco me insinuando a dizer. até mesmo quando eu ponho ponto. 

 


Para Flora com amor

Escrevo teu nome no ar e só depois eu respiro