Cada palavra é uma pelezinha do dedo puxada no dente
Serve ao menos pra provar algum sangue quente
nesse corpo endurecido de nãos.
Há dias em que me espanto
Em outros nada sinto.
Mas minto.
Naquele gesto eu vi suas mãos pequeninas vendendo as mesmas outras balas vinte, trinta anos atrás
Eu li nas suas mãos os lápis desapontados de um O que não completou sua curva na palavra
Naqueles olhos cansados eu enxerguei seu menino maroto fugindo de tapa, fingindo sono, fungando o medo, sonhando com notas de deizão
No sinal.
Noite funda e úmida
Daqui de dentro o mundo não parece ter fim nem começo
daqui de dentro as coisas só são,
sem disfarces, sem adornos
No breu só tato medindo palmos sem encontrar obstáculos
No breu o Braille encontra parágrafos inteiros sem pontuações
Daqui de dentro o fora é lenda
o tempo nunca foi fatiado
a pele comanda o ritmo cardíaco
a pele sempre soube mais.
A vida é uma festa
A vida é uma fresta
Um espanto
Um estrondo
É fragilidade impetuosa
É travessia e atravessamento.
A vida aFlora
A vida nem cabe num viver
Chega na metade e parece que foi hoje cedo
E não foi?
Não foi.
A minha já faz 43 anos.
Ou 34?
Gracias a la Vida,
A Mercedes,
A Henrique,
Que me han dado tanto.
A coruja tenta dormir, mas seus dois abajures iluminam fantasmas de divã
Coração divaga adivinhando constelações esquecidas
Não se constata a presença de estrelas cadentes neste céu tão azul, por favor, não insista
A claridade dos teus cabelos rivaliza com o solstício de verão
Ouço música bem alto pra despistar meus pensamentos barulhentos
Este mar está revolto e espuma contradições persistentes.
Hoje me oprime
Amanhã também.
Não tenho a pretensão de alcançar esse lugar
de troféus e desertos.
Que guarde seu latifúndio improdutivo
como herança de si.
Eu tenho a palavra solta e vadia.
Eu posso colher a flor que recém abriu no jardim.
Eu quero beber sol, lamber nuvem...
Guardei meu arpão
deixei-me pescar
Mas só depois de nadar meu coração em outras águas.
Livre é quem escolhe suas navalhas.
Escrevo teu nome no ar e só depois eu respiro