terça-feira, 4 de julho de 2023

A catadora Dora cata dor, adora a cata ora!

A catadora Dora não se chama Dora, não chora pra rimar, nem adora catar nada

mas cata dor, a sua e a minha

Ela passa pelo vidro da janela e puxa seu carrinho com bravura

Cata sua dor e rapidamente descarta-a

aprendeu a não doer por nada

Eu enquanto assisto a velha catadora penso em lições de alfabetização ridículas com a palavra catadora

Doendo uma dor privilegiada.

Ela tentou ensurdecer seus pensamentos barulhentos 

olhando as nuvens passarem, lentas,

sentindo que ainda há vento,

aventou: vai chover amanhã.

Ter um pedaço de grama sob seus pés é tudo o que mais poderia desejar 

depois de viver deixando cair balas de goma dos bolsos.

Ela sentiu como se já tivesse sentido tudo antes

mas só percebeu depois.

A vida a gente vive na hora

O que foi ou deveria ter sido é só matéria pra análise. 


Escrevo só pra continuar acreditando que só a palavra salva embora tantas vezes desacredite que haja qualquer forma de salvação que não seja só pela palavra. 

Que me salva. 

Jesus, isso soou religioso.  Credo cruz!

Ergo os olhos para os montes

De onde virá meu consolo?

O meu consolo vem dessas nuvens que passam

E de algum amor que fica. 

Nem ouvi a música que tocou 

Que sabor tinha a panqueca que comi

O que você disse minha filha 

Mergulhada nas histórias nas stories

Presente desalmado corpo

O indicador domesticado 

saltita entre feeds que alimentam nem sempre nutrem

A tendinite grita atende Niteeeeee

Fotos fotos fotos das fotos

Fisgada na rede me debato atabalhoada 

Abatida: mãe, sai do celular!

Vou postar esse aqui e já já já...

 Lendo as paredes me desloco pela casa, é madrugada, e penso essa é minha casa, mas ontem mesmo eu morava em outras texturas, outras cores, mas ontem mesmo minha janela era de abrir do meio pras extremidades não da esquerda pra direita, ontem mesmo a mãe no sofá vendo novela, ontem a tia no quintal, o tio cantarolando Roberto, a vó com seu passo lento chegava na minha casa. Até que seu passo cessou. As vozes dos tios calaram. As paredes outras. As águas maternas desaguaram na imensidão. E somente o cheiro dos seus cabelos e do creme facial permaneceram nas minhas narinas, e alguns fios de cabelos avermelhados presos na sua escova a pentear os meus vazios e silêncios e insônias e sorrisos.


 Impressiona a audácia da trepadeira que pressiona a telha porque quer 

ser céu 

Nas mínimas frestas semeia, ramifica e colhe a si mesma 

Olhe: faz festa pro sol 

e escolhe ver o mundo panoramicamente

Jamais se atém em demasia às causas das formigas ou minhocas.

Quem me dera ser assim. 


Para Flora com amor

Escrevo teu nome no ar e só depois eu respiro