terça-feira, 29 de outubro de 2019


Senti tua barba não pinicar meu rosto 
Senti teu olho mergulhar no meu
Senti tua língua falar a minha
E as veias das tuas mãos saltarem pra eu não te escapar
Senti você dentro de mim
E fora e dentro 
E fora do peito meu coração bateu
Senti tudo aquilo que se sente quando se sente tudo.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Andei numa estrada longa
Senti cada pedra desse chão
Pedras pontiagudas, arredondadas
lisas, escaldantes, úmidas, gélidas, cortantes
Nem sapatilha de solado fino
Mas os dois pés fincados
Naquilo que fica
depois que só fica o pó

Senti o salgado da lágrima na língua
Descobri que cada gota me fez sentir menos
Descobri que até os amigos cansam da nossa dor
Ao menos o álcool não cansa
Descobri que até nós cansamos da nossa dor
O grau máximo da solidão: abandonados até de nós mesmos

Ao menos a natureza para nos tocar...
Beijou-me demoradamente a chuva na face
Brincou a brisa com os meus cabelos
E cada folha que me conheceu
contou-me um segredo
Mas eu não ouvi nada
porque não entendo a língua dos outonos
Nunca precisei aprender a abandonar
Mas agora de repente
Eis que preciso

O tempo, senhor da morte,
disse-me que a hora é agora
Reluto entretanto e penso na semana passada
no mês que se foi
na vida que passou
Reluto entretanto e penso na próxima semana
no ano que vem
no dia que nunca virá
Reluto pelo hábito de relutar
Reluto pois ainda estou de luto
Reluto porque não desisti de lutar
Acostumada a túneis invisíveis e prolongados que sou
Sei que um dia os ultrapasso
Sei que um dia será outro o passo
com sapatos de bailarina

que minha mãe para mim sonhou. 

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Sale!!! Rebajas!!! Promoção!!!
95 poemas pelo preço de nenhum!!!
Aqui tem amor de graça
Pode pegar, largar, ficar, gostar, odiar
Pode doar, revender se apertar demais
Se ficar muito largo
Se marcar muito o corpo
Se as cores não combinarem
Se não for teu estilo
Há sempre o poema certo pra alguém
Eu só estou baixando tanto o preço
Porque a crise tá braba
Dá pra viver disso não
E também tô me mudando
Aproveite
95 poemas pelo preço de nenhum
É promoção!



No more poetry
Enough is enough

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Ela virou um
alfinete fincado
no mapa-múndi dele.
Na minha casa quando as pessoas choram, alguém pergunta se ficaram bem no dia seguinte
Na minha casa como há carinho e querer-se bem, mesmo quando o contrariamento e o desapontamento acontecem, as pessoas esforçam-se para resgatar os laços e desatar os nós
Na minha casa pelo fato de as pessoas terem vivido uma história importante juntas elas sentem a necessidade de demonstrar consideração e amizade
Na minha casa as pessoas dizem Olá pela manhã e Bons sonhos à noite
Na minha casa tudo pode ser esquecido e superado porque há afeto
Na minha casa ninguém quer ver ninguém sofrendo
Na minha casa as pessoas mandam mensagens quando estão longe dizendo que preocupam-se
Na minha casa as pessoas se importam.
Queria que o mundo fosse mais parecido com minha casa
Mas vejo que não.


Para Flora com amor

Escrevo teu nome no ar e só depois eu respiro