quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Eu tenho a necessidade de sentir meu corpo ser experimentado pela arte

Eu tenho a necessidade de sentir meu corpo ser diluído, ser dissolvido e reconstituído 

de sentir meu corpo ser elevado a altas temperaturas e depois ser resfriado pela arte

de sentir meus olhos serem atravessados e enxergados

de sentir meu peito ser inundado, afogado e salvo, diagnosticado e medicado pela arte

de sentir meus pés serem enlameados, andarilhados

meu corpo ser desvertebrado, contorcido e alongado pela arte

de sentir meus pelos serem acariciados e arrancados 

e minha boca ser lambida, mastigada, engolida

pela mesma arte que me humaniza e que me transpassa com flechas invisíveis

pela mesma arte que me faz tão uma, tão nenhuma, tão todo mundo.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Será que lágrimas podem afogar alguém de Escorpião ou Peixes? 

Fogueiras podem queimar um ser de Áries ou Leão?
Pra Virgem ou Capricórnio também cai o chão?
E falta ar pra algum dos Gêmeos?
Eu não sei
Eu não sei
Eu só sei que ter signo, ascendente, Lua, Vênus, Marte e todo o sistema solar em tantos signos do Zodíaco
Se não mata
Fortalece. 


 Coração em ardência

em ânsia
em anseio
em espanto
em desgraça
em espera
em jornada. 
Lembrar de desmarcar o cardio. 
Bate. Acho. 


anseio
sei
teu seio no meu
tua noite raiando meu dia
teu medo apertando minha mão
teu silêncio averbando minha palavra
tua língua contornando meu céu aberto
e salivando outros céus por aí
escuros e brilhantes
como os de deserto. 

Estou aqui. Estamos. Sentindo. Inundando. Secando. Queimando. Lá fora sempre os trinados treinados para a arte de amar. Um pedreiro martela. Lembro daquela frase: se tens um martelo na cabeça, todos os problemas são pregos. Vejo tanto isso ao meu redor... Me pego pensando se já não me tornei a pessoa que jamais queria ser. Me pego desejando apagar essa última frase afinal não, o ego não dá conta de reconhecer. Que ego dá? 

Há quem se sinta suficientemente pronto, analisado, criado. Todos nós não enxergamos o que os outros enxergam. Todos nós nos tornamos um pouco daquilo de que fugimos. Uma música caipira toca ao longe. Mal consigo ouvir mas sei que é caipira pois os violões da família me ensinaram cedo. Carros. Carros. Olho o chão sujo limpado há quatro dias. Lembro de todas as mães do mundo reclamando da repetição doméstica. Estou parada aqui por esse instante pois no próximo voltarei a me esquecer para poder seguir. Pois no próximo voltarei a viver para poder morrer. Pois no próximo serei de novo aquele papel fino de convite de casamento que após ser admirado vai cerimoniosamente pra gaveta. 

Quer coisa mais emblemática do que uma criança que pede a caixa do Natal e coloca enfeites no quarto? 

Como alguém consegue ler Clarice em uma única vida? Eu paro por semanas nas mesmas páginas pra sentir o sabor delas em todas as partes da língua. Cada vez as palavras dançam pra mim e trocam de lugares. Eu leio Clarice como se lê Bíblia, abro os livros em uma página sorteada e lá eu paro procurando um algo que fale pra mim uma coisa que preciso ou que não preciso ouvir. E tudo me captura. Tanto que não consigo ler nada dela até acabar. Como ler o infinito até o fim?

Para Flora com amor

Escrevo teu nome no ar e só depois eu respiro