Depois que nasci mãe,
as fibras do meu coração esticaram,
se contorceram,
se derreteram e inflamaram para ser
colchão, ancoradouro,
saliva,
redoma e aragem
para outro
coração.
Eu viro sombra
eu viro resto
eu viro poça
eu viro pó
eu viro pedra
e rachadura
eu viro sobra
eu viro nó
eu viro caso
eu viro caos
eu viro casco
eu viro Jó
eu viro coma
eu viro como
eu viro poço
eu viro só
Em dias em que cada fibra flecha
cada poro queixa
cada pelo berra
em dias em que o corpo parece
terra arrasada
cenário de guerra
onde uma equilibrista de vidro capenga
dança na corda
cai de cena
e parte a plateia de pena.
Com o celular na mão procuro por respostas improváveis de se achar em uma rede impessoal que se sente íntima de mim
Não tenho mais punho para toda essa tendinite
Não tenho mais peito pra toda a minha vaidade
Exijo um amigo que me meça o quanto eu acho que valho
Só pra responder que não mereço
Não tenho vontade de responder mensagens
Não tenho forças para sentir o de sempre de novo
Não estou convencida de saber mais sobre nada
Principalmente sobre mim
Meu corpo só pede um copo
E um pouco de torpor
Estou vazia de me sentir tão cheia.
Eu tenho a necessidade de sentir meu corpo ser experimentado pela arte
Eu tenho a necessidade de sentir meu corpo ser diluído, ser dissolvido e reconstituído
de sentir meu corpo ser elevado a altas temperaturas e depois ser resfriado pela arte
de sentir meus olhos serem atravessados e enxergados
de sentir meu peito ser inundado, afogado e salvo, diagnosticado e medicado pela arte
de sentir meus pés serem enlameados, andarilhados
meu corpo ser desvertebrado, contorcido e alongado pela arte
de sentir meus pelos serem acariciados e arrancados
e minha boca ser lambida, mastigada, engolida
pela mesma arte que me humaniza e que me transpassa com flechas invisíveis
pela mesma arte que me faz tão uma, tão nenhuma, tão todo mundo.
Será que lágrimas podem afogar alguém de Escorpião ou Peixes?
Escrevo teu nome no ar e só depois eu respiro