quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Depois que nasci mãe, 

as fibras do meu coração esticaram, 

se contorceram, 

se derreteram e inflamaram para ser 

colchão, ancoradouro,

saliva, 

redoma e aragem 

para outro 

coração.


sábado, 12 de setembro de 2020

Eu viro sombra 

eu viro resto

eu viro poça

eu viro pó 

eu viro pedra 

e rachadura 

eu viro sobra 

eu viro nó 

eu viro caso

eu viro caos 

eu viro casco

eu viro Jó 

eu viro coma 

eu viro como 

eu viro poço 

eu viro só 

Em dias em que cada fibra flecha

cada poro queixa

cada pelo berra

em dias em que o corpo parece 

terra arrasada 

cenário de guerra 

onde uma equilibrista de vidro capenga

dança na corda

cai de cena

e parte a plateia de pena.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Com o celular na mão procuro por respostas improváveis de se achar em uma rede impessoal que se sente íntima de mim

Não tenho mais punho para toda  essa tendinite

Não tenho mais peito pra toda a minha vaidade

Exijo um amigo que me meça o quanto eu acho que valho 

Só pra responder que não mereço

Não tenho vontade de responder mensagens

Não tenho forças para sentir o de sempre de novo

Não estou convencida de saber mais sobre nada

Principalmente sobre mim

Meu corpo só pede um copo

E um pouco de torpor

Estou vazia de me sentir tão cheia.




quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Eu tenho a necessidade de sentir meu corpo ser experimentado pela arte

Eu tenho a necessidade de sentir meu corpo ser diluído, ser dissolvido e reconstituído 

de sentir meu corpo ser elevado a altas temperaturas e depois ser resfriado pela arte

de sentir meus olhos serem atravessados e enxergados

de sentir meu peito ser inundado, afogado e salvo, diagnosticado e medicado pela arte

de sentir meus pés serem enlameados, andarilhados

meu corpo ser desvertebrado, contorcido e alongado pela arte

de sentir meus pelos serem acariciados e arrancados 

e minha boca ser lambida, mastigada, engolida

pela mesma arte que me humaniza e que me transpassa com flechas invisíveis

pela mesma arte que me faz tão uma, tão nenhuma, tão todo mundo.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Será que lágrimas podem afogar alguém de Escorpião ou Peixes? 

Fogueiras podem queimar um ser de Áries ou Leão?
Pra Virgem ou Capricórnio também cai o chão?
E falta ar pra algum dos Gêmeos?
Eu não sei
Eu não sei
Eu só sei que ter signo, ascendente, Lua, Vênus, Marte e todo o sistema solar em tantos signos do Zodíaco
Se não mata
Fortalece. 


 Coração em ardência

em ânsia
em anseio
em espanto
em desgraça
em espera
em jornada. 
Lembrar de desmarcar o cardio. 
Bate. Acho. 


anseio
sei
teu seio no meu
tua noite raiando meu dia
teu medo apertando minha mão
teu silêncio averbando minha palavra
tua língua contornando meu céu aberto
e salivando outros céus por aí
escuros e brilhantes
como os de deserto. 

Para Flora com amor

Escrevo teu nome no ar e só depois eu respiro