terça-feira, 18 de agosto de 2020

Estou aqui. Estamos. Sentindo. Inundando. Secando. Queimando. Lá fora sempre os trinados treinados para a arte de amar. Um pedreiro martela. Lembro daquela frase: se tens um martelo na cabeça, todos os problemas são pregos. Vejo tanto isso ao meu redor... Me pego pensando se já não me tornei a pessoa que jamais queria ser. Me pego desejando apagar essa última frase afinal não, o ego não dá conta de reconhecer. Que ego dá? 

Há quem se sinta suficientemente pronto, analisado, criado. Todos nós não enxergamos o que os outros enxergam. Todos nós nos tornamos um pouco daquilo de que fugimos. Uma música caipira toca ao longe. Mal consigo ouvir mas sei que é caipira pois os violões da família me ensinaram cedo. Carros. Carros. Olho o chão sujo limpado há quatro dias. Lembro de todas as mães do mundo reclamando da repetição doméstica. Estou parada aqui por esse instante pois no próximo voltarei a me esquecer para poder seguir. Pois no próximo voltarei a viver para poder morrer. Pois no próximo serei de novo aquele papel fino de convite de casamento que após ser admirado vai cerimoniosamente pra gaveta. 

Quer coisa mais emblemática do que uma criança que pede a caixa do Natal e coloca enfeites no quarto? 

Como alguém consegue ler Clarice em uma única vida? Eu paro por semanas nas mesmas páginas pra sentir o sabor delas em todas as partes da língua. Cada vez as palavras dançam pra mim e trocam de lugares. Eu leio Clarice como se lê Bíblia, abro os livros em uma página sorteada e lá eu paro procurando um algo que fale pra mim uma coisa que preciso ou que não preciso ouvir. E tudo me captura. Tanto que não consigo ler nada dela até acabar. Como ler o infinito até o fim?

 Às vezes a gente precisaria marcar horário pra chorar

Lembro de uma amiga que falava que às vezes chorava de manhã por ter que sair da cama

Uma jeito de se preparar pra essa vida louca

O que pode acontecer em um dia?

Eu estava saindo pra ir à casa dela quando soube que ela morreu

Eu ia vê-la, abraçá-la... e ela já não estava mais lá pra sentir esse abraço e esse olhar

Talvez até estivesse

Mas objetivamente não

A vida é o que acontece enquanto pensamos na vida

A vida é o que acontece enquanto vivemos

Depois... sobra mistério!

Queria tanto te ver hoje

Na tua casa.


 Me senti meio cachorro vagabundo quando a mãe se foi. Parece que não tinha mais nenhum lugar pra me abrigar nos domingos longos e sem almoço de mãe. Parece que não tinha mais pra quem chorar de graça a minha dor. Parece que ninguém mais me amaria sem razão. 

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

 Ah...Perséfone

Fugida do inverno

Fugida do inferno

Esperando por Céres

Esperando pelo tempo

do colo materno

Não quer mais ver céu de terra e raiz

Quer olhos sensíveis de luz

e de cor

Quer seis meses de ar

Quer cheiro de mato molhado

Enquanto espera

Chora tanto que talvez algum dia nasça planta no mundo subterrâneo

Espera enquanto

Chora tanto que me condoo

Pressentindo que sou tão Perséfone quanto Perséfone

hoje

esperando por amanhã

e amanhã

à espera de um ontem intangível

Pressentindo que estranha sina é essa

de ser gloriosa e miserável

de ser infinita e temporal

de ser tudo e nada

Centelha divina e ribanceira

Estranha sina minha

e de uma humanidade inteira

segunda-feira, 13 de julho de 2020


Dentro da cela de estar
Do parto de dormir
Do sanitório
Da sozinha
Sem pele-top
Com-puta-dor
Eu pego o meu se-anular
E pela banda mais estreita e sem graça do planeta eu grito
Ah, ao menos grito
Apesar de comprimidos
somos infinitos
(somos
infinitos?)

Para Flora com amor

Escrevo teu nome no ar e só depois eu respiro