terça-feira, 4 de julho de 2023

Nem ouvi a música que tocou 

Que sabor tinha a panqueca que comi

O que você disse minha filha 

Mergulhada nas histórias nas stories

Presente desalmado corpo

O indicador domesticado 

saltita entre feeds que alimentam nem sempre nutrem

A tendinite grita atende Niteeeeee

Fotos fotos fotos das fotos

Fisgada na rede me debato atabalhoada 

Abatida: mãe, sai do celular!

Vou postar esse aqui e já já já...

 Lendo as paredes me desloco pela casa, é madrugada, e penso essa é minha casa, mas ontem mesmo eu morava em outras texturas, outras cores, mas ontem mesmo minha janela era de abrir do meio pras extremidades não da esquerda pra direita, ontem mesmo a mãe no sofá vendo novela, ontem a tia no quintal, o tio cantarolando Roberto, a vó com seu passo lento chegava na minha casa. Até que seu passo cessou. As vozes dos tios calaram. As paredes outras. As águas maternas desaguaram na imensidão. E somente o cheiro dos seus cabelos e do creme facial permaneceram nas minhas narinas, e alguns fios de cabelos avermelhados presos na sua escova a pentear os meus vazios e silêncios e insônias e sorrisos.


 Impressiona a audácia da trepadeira que pressiona a telha porque quer 

ser céu 

Nas mínimas frestas semeia, ramifica e colhe a si mesma 

Olhe: faz festa pro sol 

e escolhe ver o mundo panoramicamente

Jamais se atém em demasia às causas das formigas ou minhocas.

Quem me dera ser assim. 


Cada palavra é uma pelezinha do dedo puxada no dente 

Serve ao menos pra provar algum sangue quente 

nesse corpo endurecido de nãos.

Há dias em que me espanto 

Em outros nada sinto.

Mas minto. 

 

Naquele gesto eu vi suas mãos pequeninas vendendo as mesmas outras balas vinte, trinta anos atrás 

Eu li nas suas mãos os lápis desapontados de um O que não completou sua curva na palavra 

Naqueles olhos cansados eu enxerguei seu menino maroto fugindo de tapa, fingindo sono, fungando o medo, sonhando com notas de deizão

No sinal.

Noite funda e úmida 

Daqui de dentro o mundo não parece ter fim nem começo 

daqui de dentro as coisas só são,

sem disfarces, sem adornos

No breu só tato medindo palmos sem encontrar obstáculos 

No breu o Braille encontra parágrafos inteiros sem pontuações 

Daqui de dentro o fora é lenda

o tempo nunca foi fatiado 

a pele comanda o ritmo cardíaco

a pele sempre soube mais.  

 Coloquei os meus desejos mais perigosos e secretos pra dormir no seu berço.

Acalentei-os até mesmo com canções de ninar.

Alta madrugada eles em sombras vêm puxar meu pé, causar calafrios, pânico, me vandalizar...

Isso é forma de retribuir toda a minha dedicação?


Para Flora com amor

Escrevo teu nome no ar e só depois eu respiro