Escrevo só pra continuar acreditando que só a palavra salva embora tantas vezes desacredite que haja qualquer forma de salvação que não seja só pela palavra.
Que me salva.
Jesus, isso soou religioso. Credo cruz!
Nem ouvi a música que tocou
Que sabor tinha a panqueca que comi
O que você disse minha filha
Mergulhada nas histórias nas stories
Presente desalmado corpo
O indicador domesticado
saltita entre feeds que alimentam nem sempre nutrem
A tendinite grita atende Niteeeeee
Fotos fotos fotos das fotos
Fisgada na rede me debato atabalhoada
Abatida: mãe, sai do celular!
Vou postar esse aqui e já já já...
Lendo as paredes me desloco pela casa, é madrugada, e penso essa é minha casa, mas ontem mesmo eu morava em outras texturas, outras cores, mas ontem mesmo minha janela era de abrir do meio pras extremidades não da esquerda pra direita, ontem mesmo a mãe no sofá vendo novela, ontem a tia no quintal, o tio cantarolando Roberto, a vó com seu passo lento chegava na minha casa. Até que seu passo cessou. As vozes dos tios calaram. As paredes outras. As águas maternas desaguaram na imensidão. E somente o cheiro dos seus cabelos e do creme facial permaneceram nas minhas narinas, e alguns fios de cabelos avermelhados presos na sua escova a pentear os meus vazios e silêncios e insônias e sorrisos.
Naquele gesto eu vi suas mãos pequeninas vendendo as mesmas outras balas vinte, trinta anos atrás
Eu li nas suas mãos os lápis desapontados de um O que não completou sua curva na palavra
Naqueles olhos cansados eu enxerguei seu menino maroto fugindo de tapa, fingindo sono, fungando o medo, sonhando com notas de deizão
No sinal.
Escrevo teu nome no ar e só depois eu respiro