sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Devagar 

Vagar

Vaguear

Vaga

Vagabundear


Aprender a dar espaço para o nada

Abrir vagas onde não há

Vagar sem e com rumo

Ruminar o tempo

Estudar a lentidão

Vagabundear por decisão

De cisão com o frenético

Notação musical para compassos de silêncio

Devagar com o andor

de vagar com a dor.

domingo, 4 de outubro de 2020

Cada vez que passo os olhos por essa tela em branco na correria de tantas correrias tenho vontade de congelar o tempo e parar. aqui. só parar. e jogar letras fora. e dentro. e no ar. e dentro do meu olho. mesmo que a mão grite tendinite a cada 30 segundos/digitação. ainda. a vontade de me pronunciar, de não me eximir, de não me encolher. de não passar backspace ou delete em mim. ainda. a urgência de não passar pela vida em brancas nuvens. nem brancas telas. ainda a vontade de borrar o mundo com alguma palavra em preto. a vontade de bater o coração nas teclas, a vontade de dizer alguma palavra impronunciada. de dizer.

 

apesar de saber que o que tenho pra escrever tem mais a ver com folha em branco que em preto, esse cursor não desiste e continua a bater cardíaco me insinuando a dizer. até mesmo quando eu ponho ponto. 

 


quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Depois que nasci mãe, 

as fibras do meu coração esticaram, 

se contorceram, 

se derreteram e inflamaram para ser 

colchão, ancoradouro,

saliva, 

redoma e aragem 

para outro 

coração.


sábado, 12 de setembro de 2020

Eu viro sombra 

eu viro resto

eu viro poça

eu viro pó 

eu viro pedra 

e rachadura 

eu viro sobra 

eu viro nó 

eu viro caso

eu viro caos 

eu viro casco

eu viro Jó 

eu viro coma 

eu viro como 

eu viro poço 

eu viro só 

Em dias em que cada fibra flecha

cada poro queixa

cada pelo berra

em dias em que o corpo parece 

terra arrasada 

cenário de guerra 

onde uma equilibrista de vidro capenga

dança na corda

cai de cena

e parte a plateia de pena.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Com o celular na mão procuro por respostas improváveis de se achar em uma rede impessoal que se sente íntima de mim

Não tenho mais punho para toda  essa tendinite

Não tenho mais peito pra toda a minha vaidade

Exijo um amigo que me meça o quanto eu acho que valho 

Só pra responder que não mereço

Não tenho vontade de responder mensagens

Não tenho forças para sentir o de sempre de novo

Não estou convencida de saber mais sobre nada

Principalmente sobre mim

Meu corpo só pede um copo

E um pouco de torpor

Estou vazia de me sentir tão cheia.




quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Eu tenho a necessidade de sentir meu corpo ser experimentado pela arte

Eu tenho a necessidade de sentir meu corpo ser diluído, ser dissolvido e reconstituído 

de sentir meu corpo ser elevado a altas temperaturas e depois ser resfriado pela arte

de sentir meus olhos serem atravessados e enxergados

de sentir meu peito ser inundado, afogado e salvo, diagnosticado e medicado pela arte

de sentir meus pés serem enlameados, andarilhados

meu corpo ser desvertebrado, contorcido e alongado pela arte

de sentir meus pelos serem acariciados e arrancados 

e minha boca ser lambida, mastigada, engolida

pela mesma arte que me humaniza e que me transpassa com flechas invisíveis

pela mesma arte que me faz tão uma, tão nenhuma, tão todo mundo.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Será que lágrimas podem afogar alguém de Escorpião ou Peixes? 

Fogueiras podem queimar um ser de Áries ou Leão?
Pra Virgem ou Capricórnio também cai o chão?
E falta ar pra algum dos Gêmeos?
Eu não sei
Eu não sei
Eu só sei que ter signo, ascendente, Lua, Vênus, Marte e todo o sistema solar em tantos signos do Zodíaco
Se não mata
Fortalece. 

Para Flora com amor

Escrevo teu nome no ar e só depois eu respiro