Não tenho nada de inteligente pra falar.
Só trago meus olhos
E meu sorriso.
Serve?
Caminho pelas lajotas como quem procura padrões
De longe, a luz do posto de gasolina me engana um entardecer às 23h30
Deixo-me levar porque é tão bonito...
Uma janela aberta, uma só
Um livro de reza convida os joelhos
Ecos de vozes, corredores profundos extensos
E a foto da moça pedindo silêncios
Coisas pioram de uma para outra
Uma possível perna amputada aqui
Três stents em um coração ali
Intestinos, rins, estômagos, bexigas sem festa
Na loteria da morte ou da sorte
Uma janela aberta, uma só.
O peixe betta morreu hoje. Parece que morreu, tá lá parado no aquário desde ontem. Parou de comer faz 2 dias. A pequena pediu pra levar no veterinário. Expliquei que não atendem peixes... Já sentia uma crise interna tão grande por não ser Vegetariana e comer os primos , tios, tias de segundo grau , sei lá, daquele mesmo bicho que eu cuido. Ele era tão bonito, daquele azul beija- flor, sabe. Batia as nadadeiras rapidinho quando eu chegava com a ração. Era essa a nossa grande inte-ração, nada mais e mesmo assim chorei. A morte dói. Ver um ser querido sendo reduzido a um pedacinho de corpo boiando na água ou deitado em uma cama ou em uma maca, ver um ser tão vivo ser reduzido a uma vaga lembrança parece a maior piada sem graça da história da humanidade. Parece desumano. Eu sei, a morte é a única certeza da vida, deveríamos tratá-la com mais naturalidade, mas sinceramente os únicos que a tratam com naturalidade são os que acreditam no depois. Ou seja, os que se recusam a crer no fim absoluto, os que percebem uma continuidade no fio da vida ainda que com outro corpo, outra experiência.
O peixe beta morreu, 3 anos cuidando. Ontem vi um vídeo da Flora com pouco mais de 1 aninho em que a mãe surpreendentemente aparecia ao fundo. Ali ela voltou a respirar, a rir, a fazer graça. Voltou a bater suas nadadeiras no aquário da sua casa, festiva, amorosa, alegre, muito, muito alegre. Se mesmo uma pequena morte, como a de um ser tão ínfimo como um peixe beta dói, imagina... Dói a morte da mariposa de Virginia, dói lembrar da única certeza. O que fazer? Nada. Ah, vamos viver, viver, viver, aproveitar... Sim, sim, mas agora é nada. Agora é tempo de doer e lembrar. De reunir nossos mortos favoritos numa lembrança terna e eterna, numa promessa de memória até que a gente mesma vire lembrança. Se tivermos sorte. E se dói, é bom lembrar que é culpa de uma capacidade extraordinária de amar. Ah mãe... A-mar. Que haja mar pra nós, pro peixe betta, pra filha, pra dias de sol, pra dias de chuva, pra mim, pra ti, pro fim.
Como se faz isso? Como se aceita a coisa como é. A Coisa. Como se aceita que não muda, que é isso, que a coisa se quebrou, se perdeu e agora é outra coisa, a mesma outra coisa, a que era que não volta. Como aceitar-se outra coisa e ainda assim enxergar um resquício da coisa antiga na coisa nova, como enxergar um vislumbre, uma anunciação, como se aceita a coisa como se ela própria se configurou sem sofrer tanto pela outra coisa passada, como se aceita até a última gota, em última instância, como se aceita que nada vai voltar ao que foi, como se põe em movimento depois disso e se desiste de consertar a coisa sem conserto, ainda que fosse necessário o reparo, nem sempre é possível reparar, então como se aceita exatamente como a coisa se apresenta e se segue e se segue e se chora até a última gota da madrugada e se aceita os compromissos e se aceita os comprimidos e se aceita que nem sempre vai ser possível deixar a coisa em boas condições e outras vezes vai ser, que aceitar é o que sobrou pra vida adulta, que as coisas têm limites, as coisas andam por si, não nos perguntam nossa opinião, as coisas são crianças crescidas.
O que fazer com essa coisa que desaquieta os olhos e desordena os pensamentos presumidamente organizados, como se controla essa coisa que caminha sob minha pele e me arranca pela raiz e me sufoca, me asfixia, me afoga sorrateira a coisa? Queria só descansar meu corpo em uma cama, essa coisa tão ancestral. Como é linda essa coisa de deitar e dormir e sonhar, como sonhar é uma bela coisa a se permitir. Mas essa coisa aperta meu peito que chora baixinho por muito tempo porque caiu do ninho. Talvez assim caído, ferido, desenganado meu peito passarinho possa enfim parar com toda essa coisa e aceitar um remanso pra esse cansaço dessa coisa toda.
O que fazer com toda essa escuridão?
Acender uma vela, óbvio
Mas eu sou a cera
Me amoleço, me derramo, me consumo
Tão gás, tão líquida, derretida derrotada no prato.
O que fazer com esse medo todo?
Correr, é óbvio.
Fugir pra bem longe, me blindar, desaparecer, fingir coragens
Mas eu sou escancarada, corpo lento, corpulenta
Não sei fugir sorrateira, virar as costas, desviar meus poros.
O que fazer com esse bicho aqui inquieto, enlouquecido, ferido aqui, esse bicho sem espécie, sem nome, com fome que habita meu quintal
Matá-lo
Como se mata a um mosquito
Eu sempre fui bem em matar mosquitos, talvez minha melhor habilidade
Marcar minhas mãos com seus sangues de conta gotas
Como se por um único instante eu pudesse controlar algum destino.
Como se eu pudesse e posso. O dos mosquitos.
E depois dormir, dormir, dormir toda essa fúria desse sono perdido.
Escrevo teu nome no ar e só depois eu respiro